Um garoto que estava no alto de um coqueiro avistou um homem que passava por ali e, desejando irritá-lo, atirou um coco em sua cabeça. Depois de passar um pouco a dor que sentira, o homem olhou para o menino com um sorriso, abriu o coco com seu facão bebeu de sua água, comeu sua polpa e ainda guardou a casca do coco para transformá-la em artesanato e vendê-lo aos turistas.
A nossa existência é pura mudança. A partir do momento que existimos, iniciamos um processo de constante transformação, de uma contínua metamorfose. Basta olharmos nossos álbuns de fotografia para constatarmos facilmente nossa transformação com o passar do tempo. Anos atrás, não fazíamos parte deste nosso universo e, daqui alguns anos, muitos de nós deixarão de fazê-lo. Por mais que esta constatação seja simples e ao mesmo tempo dolorosa, ela é uma das mais fortes evidências: a existência é efêmera.
Mas não é somente a efemeridade de nossa passagem por este mundo que nos oferece a certeza da mudança. O próprio conteúdo desta “viagem” por este mundo se transforma constantemente. Dez anos atrás, tínhamos uma determinada consciência de nossas ações e de nosso universo; hoje possuímos outra e daqui a dez anos, teremos, com certeza, outra forma de ver e compreender o que somos e fazemos. Porém, perceber que a existência é efêmera e que durante o seu desenvolvimento passamos por fases e experiências que nos fazem vivenciar transformações não é ainda a constatação mais importante.
Questão mais séria para nós seres humanos é assumir o desafio de conduzir esta mudança, de tomar as rédeas de nossa história. Justamente, o “viver” significa tornar-se, dentro de nossas limitações, condutores de nosso próprio destino. Não deixar simplesmente que a vida nos leve, mas levar a vida. Em outras palavras, o fundamental é preencher a existência com verdadeira vida. A vida é o conteúdo de nossa existência. Ela é a soma de nossa vitalidade e nossa consciência, nossas decisões e nossas ações, determinando, assim, o que chamamos de história. Esta postura ativa na existência é a única forma de darmos sentido à nossa passagem por este universo.
Contudo, quem procura assumir o controle de seu destino e não deixa que as circunstâncias se desenvolvam por si mesmas está fadado a sofrer. Afinal, toda mudança consciente exige necessariamente o “conflito”. Talvez por isso que muitas pessoas prefiram se resignar com as coisas como estão e não procuram contribuir para a modificação da realidade. Para dizer o que penso, para fazer o que acho correto, para protestar contra o que está errado, é necessário estar pronto para o conflito. Viver é estar inevitavelmente em conflito com as forças contrárias, mas também com as pessoas que nos desanimam porque não possuem a coragem de serem diferentes, autênticas e arrojadas.
Mas quem sofre por estar conduzindo o rumo de sua história possui um sofrimento diferente daqueles que deixam as coisas como estão. O sofrimento de quem transforma é acompanhado por uma satisfação: a satisfação de ser autêntico, de estar lutando para a melhoria de sua história, enfim, de estar vivendo.
Oscar Wilde certa vez escreveu que algumas pessoas vivem, a maioria existe. Viver é preencher a existência com minha autenticidade e minha coragem de ser arrojado, buscando construir a história que desejo. Porém, quem descobriu a necessidade de viver e não somente existir compreendeu que sua história particular está obrigatoriamente entrelaçada a uma história coletiva. Portanto, a satisfação de viver se completa na tentativa de construir a história social.
Para essa metamorfose consciente é necessário, em primeiro lugar, que o ser humano tenha uma capacidade fundamental: a transparência. Trans-parência significa ir além do que é aparente, enxergar o essencial. Para que o ser humano alcance uma vida que tenha sentido é necessário que ele seja transparente consigo mesmo e reconheça em seu interior suas capacidades e seus desejos mais profundos. Mas não é só isso. É necessário, ao mesmo tempo, que ele veja os outros seres humanos além de suas aparências. As aparências nos dividem e nos afastam em raças, classes sociais, sexualidade, religiões, posições políticas, etc. O ser humano que contribui ao mesmo tempo com sua história e com a história coletiva é aquele que consegue enxergar a essência de cada pessoa humana.
Em outras palavras, os seres humanos precisam compreender que possuem a mesma essência, apesar da diversidade aparente: pessoas que sentem a necessidade de viver e não somente existir. Aquele que assume sua história e não se esquece que os outros possuem o direito de viver, nunca deixa que um problema permaneça como problema, mas o transforma em uma oportunidade para a construção de um novo destino.
*Especial para o JC