08 de julho de 2026
Cultura

Circo é tarefa de casa

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 5 min

“Hoje tem marmelada? Tem sim senhor”. Hoje, amanhã e depois. Para os artistas circenses, o picadeiro nunca é desmontado. Com ou sem lona, o circo continua além do show e das fantasias e encontra lugar na alma desses artistas, que desfilam pela corda bamba da profissão, tendo apenas a alegria do público como meta. Amanhã, a festa é para eles; amanhã, 27 de março, é o Dia Nacional do Circo. Para celebrar a data, o Jornal da Cidade buscou um dos poucos lugares no País onde a arte circense não apenas é admirada como ensinada. Respeitável público, sejam bem-vindos ao Picadeiro Circo Escola.

Localizado nas proximidades da marginal Pinheiros, área nobre da Capital, o espaço conta com estacionamento, camarins e um circo com capacidade para até 2.500 pessoas. Além dessas instalações, o circo escola possui a estrutura móvel do caminhão trapézio, equipado com torres hidráulicas de 14 metros de altura e uma estrutura metálica de 23 metros de comprimento.

“Há quatro anos, levamos o caminhão para o Sesc de Bauru. Mais ou menos nessa época também levamos pela primeira vez o circo à Arábia Saudita. Foram 76 dias, 136 espetáculos e um público de 430 mil pessoas”, lembra o diretor proprietário e vice-presidente da Associação Brasileira de Circo (Abracirco), José Wilson Moura Leite, que comanda uma trupe de 43 artistas flutuantes, entre palhaços, mágicos, contorcionistas, trapezistas voadores e malabaristas.

Os espetáculos pelo País e Exterior garantem a sobrevivência da instituição, cuja força maior está na escola. São 14 professores que compartilham diariamente suas habilidades com apaixonados pelo circo. “Nós oferecemos 22 modalidades diferentes que qualquer pessoa pode fazer, desde que se dedique. O único pré-requisito é gostar de circo”, afirma Leite. As aulas são cobradas, mas o circo atende gratuitamente alguns jovens e crianças de baixa renda.

Nos seus 22 anos de existência, já passaram pela escola atores consagrados da televisão, como Caio Blat, Edson Celulari e José de Abreu. Além das celebridades, muitos de seus aprendizes tornaram-se mestres e conquistaram o mundo. “Dezesseis ex-alunos estão no Cirque du Soleil e outros quatro estão Ringling Bros, considerado o maior circo do mundo”, orgulha-se Leite que, mesmo mantendo uma casa no centro da cidade, passa a maior parte dos seus dias num trailer instalado no espaço. “Eu não sei viver sem o circo. É encantador mostrar sua profissão e ser reconhecido com palmas e sorrisos. Não há preço que pague por isso”.

Sangue de artista

Eles poderiam ter seguido outra profissão, mas o fascínio pelo circo foi tanto que interromperam os estudos, enfrentaram a resistência da família, separaram-se de amigos, despediram-se de seus amores e caíram na estrada. “Eu até que tentei fazer outra coisa, porque são poucos os que reconhecem nossa profissão e valorizam nosso trabalho, mas o amor pelo circo falou mais alto”, conta Nadilson Moura, 41 anos, o palhaço Tuti Fruti, que há oito anos está no Circo Escola.

A estrada é uma constante na vida de Moura. Suas viagens extrapolaram fronteiras e conquistaram territórios que, se não fosse pelo circo, o artista nunca conheceria. “Já fui para Portugal e para a Arábia Saudita, além de percorrer todo o País. A cada duas semanas, uma cidade diferente. Ah...não tem coisa melhor do que viajar!”

O malabarista Adriano Bitu, 20 anos, foi seduzido pelo circo quando ainda morava no Recife. “Eu tinha uns dez anos quando fui a um espetáculo. Saí de lá com a certeza de que ia trabalhar no circo”, lembra. Com a morte da mãe, Bitu veio para São Paulo buscar melhores condições de vida e encontrou. “Eu ganhei uma bolsa do diretor para treinar. Faz cinco anos que estou aqui. Entrei sem saber fazer nada e hoje sou malabarista!”, orgulha-se Bitu, que mora numa carreta instalada no local.

Júlio Batista, 20 anos, também conheceu o circo por meio de uma bolsa oferecida à escola onde estudava. “Há nove anos comecei a freqüentar as aulas sem pretensão, mas, quando vi, já estava envolvido. Meus pais foram contra porque diziam que não dava futuro, além de ser perigoso. Mas é do circo que eu tiro meu sustento e a minha alegria”, diz o jovem contorcionista.

A sua companheira de números, Simone Gonçalves, 21 anos, também não se arrepende do caminho que escolheu. “É difícil prosseguir com os estudos e muito mais difícil é encontrar um companheiro que entenda o seu trabalho. Mas o circo está em primeiro lugar na minha vida!”, emociona-se.

As incertezas do futuro não tiram o sono desses artistas, nem o sorriso de seus rostos. “Antes ficava com medo. Pensava que com certa idade não poderia mais trabalhar e daí, o que eu faria? Mas agora não esquento mais. Quando você corre atrás do que gosta, tudo acaba dando certo!”, acredita Gonçalves.

Serviço

O Picadeiro Circo Escola fica localizado na avenida Cidade Jardim, nº 1.105. Itaim Bibi. São Paulo – SP. Mais informações: (11) 3078-0944.

Bauru também terá Circo Escola

O projeto Circo Escola Gira Gira integra um dos dez Pontos de Cultura de Bauru aprovados pelo Ministério da Cultura (MinC) no final do ano passado. A primeira parcela do total de R$ 1,5 milhão que a cidade receberia deveria ter sido repassada no início do ano, mas foi suspensa por conta da dívida que a prefeitura mantém com a Fundação de Previdência do Servidor (Funprev).

Agora, por meio um parecer jurídico, a Secretaria de Programas e Projetos Culturais do MinC conseguiu a liberação do recurso, que deve ser entregue em abril. “Assim que a verba vier, vamos comprar os materiais necessários para iniciar as atividades. Nosso objetivo é a formação circense de crianças carentes, desde a teoria até a prática”, coloca o secretário municipal de Cultura, José Augusto Ribeiro Vinagre. De acordo com ele, o circo escola funcionará no Jardim Nova Esperança.

Além desse projeto, foram inscritos e contemplados, em Bauru, o movimento de hip hop Quilombo do Interior, o programa Viva Cultura, Ferrovia para Todos, Anjos Coloridos - Arte e Saúde Mental, o Núcleo de Pesquisa no Ensino das Artes, o Núcleo Beija-Flor de Produção Audio-Visual, o Sambódromo (que se transformaria no Barracão Escola de Samba Mestre Landinho), o distrito de Tibiriçá (que ativaria sua sala de cinema e teria oficinas musicais) e o Ciranda de Contos.