10 de julho de 2026
Economia & Negócios

Baixa renda eleva uso de cartão de crédito

Lucien Luiz
| Tempo de leitura: 4 min

As compras feitas com cartão de crédito têm crescido significativamente entre os assalariados que recebem até R$ 500,00 por mês. É o que mostra o estudo “Mercado de Baixa Renda” realizado pela Credicard - operadora de cartão de crédito.

A previsão da empresa é de que 18,5 milhões de cartões cheguem às mãos desses trabalhadores neste ano, aumento de 22,8% em relação a 2005. Até dezembro, 80,12 milhões de unidades do dinheiro de plástico devem circular no País. No ano passado foram 66,71 milhões.

Estima-se que esse volume gere uma movimentação de R$ 10,3 bilhões em compras até dezembro, expansão de 24,9% sobre o ano passado.

Quem comemora são os empresários, principalmente dos setores de alimentos e vestuário. Para eles, as vendas com cartão são extremamente viáveis porque não há risco de inadimplência.

A pesquisa da Credicard apurou que 35% dos consumidores de baixa renda usam o cartão de crédito para pagar contas em supermercados, enquanto 23% direcionam para a compra de roupas e calçados.

A tendência apontada pela pesquisa nacional pode ser confirmada em Bauru. O gerente de uma loja de confecções localizada no Centro da cidade, Alexandre Costa informa que as compras feitas com cartão de crédito no estabelecimento correspondem a 80% do total de vendas. Além disso, a maioria dos consumidores faz a opção pelo plano máximo de pagamento, que divide o valor em seis parcelas, sem juros.

Atrativo

Na opinião dele, o cartão de crédito é o principal atrativo para os clientes irem às compras. “Quem não tem dinheiro na hora, compra pelo cartão. É ele que nos faz vender bem. A venda com cartão é uma garantia de lucro certo, porque não corremos o risco de calote”, observa Costa.

Em outra loja, especializada em confecções e calçados, o cartão de crédito é responsável pelo pagamento de 50% das compras da clientela.

“É a opção de muita gente, principalmente porque a compra pode ser paga em até seis vezes. Para nós é vantajoso, já que temos a certeza de que vamos receber”, comenta o gerente do estabelecimento, Luiz Carlos de Oliveira.

O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Bauru, Sérgio Evandro do Amaral Motta, reitera o resultado das estatísticas. Segundo ele, as vendas com cartão de crédito têm crescido até 30% no comércio local.

Motta concorda com os comerciantes. Para ele, a grande vantagem do cartão de crédito, no caso dos empresários, é a garantia do recebimento. “O pagamento fica previamente consolidado, a gente sabe que não vai perder. No entanto, a desvantagem é que a loja tem que financiar o cliente. Todo mundo que compra acha que é o cartão que está financiando, mas na verdade é a loja que espera os seis meses para receber”, destaca.

O presidente da CDL também ressalta a taxa de 4% que é cobrada das lojas que trabalham com cartões de crédito, o que considera outra desvantagem. Ainda de acordo com ele, a venda a cartão pode evitar que o cliente compre mais na loja durante os meses em que paga a conta, já que não precisa voltar ao local para efetuar o pagamento, como ocorre com o carnê.

“Vender por carnê é bom negócio porque o cliente vem todo mês na loja (para pagar). No entanto, tem a desvantagem de não termos a garantia de que ele vai voltar para pagar”, avalia. Em seu estabelecimento, especializado em calçados, 30% das vendas são concretizadas com cartão de crédito.

O pintor de carros Wellington Donizete de Mello, 25 anos, diz ser um usuário assíduo de cartão de crédito. “Uso muito, principalmente para mercado e farmácia. Fica mais fácil para pagar”, conta.

Ele ressalta que, por mês, gasta entre R$ 400,00 e R$ 600,00 em compras parceladas no cartão, a mesma média de seu salário.

Cautela

O economista Mauro Fernando Gallo diz que o custo de manter um cartão de crédito por quem ganha até R$ 500,00 por mês é muito grande e, portanto, inviável. Ele orienta que o volume de compra desses trabalhadores deve ser menor do que o rendimento mensal e que o uso do cartão deve ser evitado.

Quando o cartão for utilizado, Gallo diz que a fatura deve ser paga à vista, sem parcelamentos extensos. O risco de endividamento é grande, já que os juros do cartão em planos de pagamento muito amplos variam entre 7,5% e 11% ao mês.

“Com o cartão, o consumidor acaba pagando mais pelas coisas. Portanto, não é aconselhável a sua utilização por quem ganha até R$ 500,00. Essa pessoa terá um custo de R$ 100,00 a R$ 120,00 por ano, o que é um excedente brutal”, explica o economista.

A única vantagem do cartão de crédito apontada por Gallo são os benefícios que os estabelecimentos comerciais oferecem com o uso deles, como descontos e brindes.

“Quando são oferecidas promoções através do cartão, é conveniente utilizá-lo. Em vez de pagar à vista, pague com o cartão, sem financiar a fatura quando vencer a data do pagamento. Ela deve ser quitada à vista”, reitera.

Outra vantagem do cartão citada pelo economista é a segurança. “Estando com o cartão, não é preciso andar com dinheiro no bolso”.