08 de julho de 2026
Bairros

Profissões em extinção

Rafael Tadashi
| Tempo de leitura: 3 min

Houve um tempo em que havia leiteiros que entregavam leite in natura de porta em porta, que os guarda-chuvas e os sapatos iam para o conserto e que as roupas eram feitas na medida do corpo. Neste tempo, havia pipoqueiros nas portas dos cinemas e das igrejas, os homens faziam a barba com navalha em salões especializados, as panelas eram desamassadas até que não pudessem mais ser utilizadas e as facas eram amoladas até que a lâmina sumisse por completo. Ainda existiam as parteiras, os chapeleiros, os ferreiros, os telegrafistas e os acendedores de lampiões. Algumas destas profissões não mais existem, outras ainda sobrevivem, mas estão em avançado processo de extinção.

Caminhando pelos bairros de Bauru, ainda é possível encontrar alguns desses profissionais. Em geral saudosistas, relembram os bons tempos que se foram e lamentam que a modernidade tenha inventado o descartável. Hoje, não só os pratos, copos e talheres são descartáveis. Os guarda-chuvas, os sapatos, as lâminas de barbear, as panelas e as facas duram o tempo que o ímpeto consumista leva para escolher um novo objeto de desejo.

O alfaiate Mauro Ribeiro Cabogrosso, 68 anos, puxa na memória os tempos de vacas magras que, de certa maneira, o impuseram o ofício que hoje ele domina e ama. ”Eu era pobre e, naquela época, o pai mandava trabalhar. Então, fui aprender o serviço de alfaiate com o senhor Osvaldo Minarelli, meu mestre. Eu tinha 8 anos. Portanto, são 60 anos de profissão”, conta. Outros mestres vieram na vida de Cabogrosso até que ele se tornou um”.

Mestre também se tornou Geraldo Blasque, 71 anos, mas na arte de trabalhar a madeira. Marceneiro desde os 15 anos, ele tem um história parecida com a de Cabogrosso. Precisava trabalhar e descobriu a paixão pela confecção de móveis ao entrar em uma fábrica pela primeira vez. Blasque lamenta a curta durabilidade dos produtos produzidos atualmente. “As coisas não são mais feitas para durar. Alguns armários que fiz têm mais de 40 anos e não apresentam problemas”, afirma.

Apesar dos avanços tecnológicos, alfaiates, marceneiros e sapateiros ainda dispõem, mesmo que poucas, de algumas demandas de serviço. O risco de extinção é maior para quem trabalha em áreas diretamente relacionadas à tecnologia, caso dos consertadores de máquinas de escrever, vídeos-cassetes e toca-discos.

Elias Tentor, 65 anos, passou metade de sua vida consertando máquinas de escrever. Com a popularização dos computadores, o ofício dele tornou-se obsoleto, assim como o objeto que arruma. "Apenas alguns colecionadores, pessoas que não se acostumaram aos computadores ou que receberam como relíquia ainda requerem meus serviços", conta ele.

De grão em grão

O ramo alimentício também foi afetado pela modernidade. Redes de supermercados e produtos industrializados estão levando, aos poucos, alguns ofícios à extinção. Lauro Lobato, 62 anos, o famoso “Zé Leiteiro”, vendeu leite in natura em sua própria casa durante 18 anos. Comprava de um fazendeiro e revendia para mais de 80 famílias. “Nos bons tempos, vendia 200 litros por dia. Passei o negócio para uma outra pessoa que hoje deve vender uma média de 20 litros/dia. As pessoas querem leite em caixinha”, diz.

“Está passando na sua rua, o carro da pamonha. Pamonhas, doces...”. Quem nunca ouviu esta frase? Pois até o carro da pamonha já não se vê mais com a freqüência de alguns anos atrás. Vendedor de pamonha e de outros produtos de milho, Jairo Antônio Cortez, 59 anos, afirma que as vendas nunca foram tão ruins. “Quase não existem mais vendedores de pamonha. Hoje, até supermercado vende o produto. Só continuo porque ainda tenho alguns clientes”, comenta.

Há algumas décadas, os pipoqueiros eram parte integrante dos cinemas em qualquer cidade do Brasil. Hoje, são raros, pois os donos dos cines perceberam na venda do alimento uma maneira de ganhar dinheiro. Além disso, os aparelhos de DVDs, as TVs de muitas polegadas e as pipocas de microondas deram o xeque-mate aos vendedores ambulantes de pipocas. Roberto Nunes, 72 anos, mudou de ponto há alguns anos. Hoje, vende pipoca na porta de igrejas. “Vendo muito pouco, mas é melhor do que nos cinemas. Bons tempos aqueles... Cinema sem pipoca não existe, né? Nem pipoca sem pipoqueiro...”, filosofa.