Ao acordar, Jane Mara Cardoso Barbosa, 11 anos, arruma sua própria cama. Ao chegar da escola, esquenta o almoço preparado pela mãe, a doméstica Joana Cardoso e, depois de fazer a lição escolar e brincar, lava a louça. Às vezes, ajuda a arrumar a mesa das refeições e alimenta seus animais de estimação, um cachorro e um coelho.
O cotidiano de Jane encontra eco em diversos lares brasileiros. Seja para adquirir maior responsabilidade e independência ou ainda ajudar na economia da casa - uma vez que nem sempre é possível contar com os serviços de uma babá ou empregada - é cada vez mais freqüente o número de crianças e adolescentes que ajudam os pais nas tarefas domésticas.
Em grande parte dos casos, como os pais trabalham fora, os filhos aprendem a participar mais ativamente do cotidiano familiar. “Minha mãe me ensinou a fazer algumas coisas e gosto de ajudar porque sei que ela não tem muito tempo. Esquento a comida num fogão elétrico, que não precisa de fósforo”, diz Jane Mara, que, algumas vezes, “divide a louça” com o irmão mais novo, Joseph Cardoso Barbosa, 9 anos.
Respeitando as etapas de desenvolvimento infanto-juvenil e as habilidades que podem ser realizadas em determinada idade, é saudável permitir que os filhos ajudem nos afazeres domésticos, aponta a psicóloga clínica e escolar Cláudia Regina da Costa Chaves.
Segundo ela, ao sentir e constatar que podem contribuir com o outro, crianças e adolescentes ganham auto-estima. “Fazer parte da vida familiar é muito gratificante para a formação do autoconceito, visão de mundo e relacionamento com as pessoas”, diz. Além disso, destaca Cláudia, a realização de simples atividades diárias pode ajudar os pequenos na organização motora, espacial e domínio do próprio corpo.
“Os movimentos necessários para determinadas tarefas dão a eles uma ordem de gestos, noção de seqüência, planejamento de ações e sensações que levam ao autocontrole, aquisição de segurança para desempenhar as atividades e a satisfação de fazê-las bem”, explica a psicóloga.
Para Cláudia, as crianças que são estimuladas desde novas a contribuir de alguma forma no dia-a-dia familiar sentem prazer maior em descobrir algo novo, conviver com outras pessoas e encarar desafios. Isso é experimentado por Thiago Rafacho Meyer e Henrique Bagali Gonçalves de Oliveira, ambos de 12 anos.
Desde pequeno, Thiago ajuda os pais em pequenas tarefas domésticas. Entre elas, arrumar a cama, lavar a louça e esquentar suas refeições. “Aos 8 anos, começei a ajudar minha avó. Como meus pais trabalham o dia inteiro, eu ficava na casa dela e lavava a louça de vez em quando”, conta. Com o passar do tempo, ele quis aprender outros afazeres, como preparar arroz e bolos. “Minha mãe me ensinou e só este ano eu pude mexer no fogão. Quando precisar, já sei fazer bastante coisa”, observa ele. Sua mãe, a bancária Lilian Meyer, aprova a iniciativa de Thiago.
Henrique também gosta de se “aventurar” na cozinha de vez em quando. Já chegou a ligar no trabalho de sua mãe, a bancária Maria Edna Bagali Oliveira, para que ela o ensinasse a fazer arroz. “Ele fez no microondas e não ficou muito bem cozido”, conta ela, que tem certo receio de deixar o filho sozinho na cozinha. “Ele faz miojo e chá à noite. Costuma ‘se virar’, mas tem coisas que nunca fez, como lavar a louça”, diz.
Para agradar a mãe, Henrique já fez algumas surpresas. “No Dia da Mulher, arrumei uma mesa bem bonita, com flores, esquentei a comida e passei aspirador de pó para deixar o apartamento limpinho”, conta. “Antes, eu não podia mexer no fogo e tinha que esperar minha mãe. Agora, já sei esquentar a comida. É bom porque acho que fico mais adulto”, comemora.
Sua mãe, Maria Edna, concorda. “É importante para que meu filho adquira mais responsabilidade porque não vou estar junto com ele sempre e precisa fazer algumas coisas sozinho”, avalia. Lilian compartilha da mesma opinião. “Em geral, os pais trabalham e não ficam o dia todo em casa e é necessário que os filhos saibam ‘se virar’”, diz.
Educação
Além de ajudar no desenvolvimento da criança e do adolescente, a participação infanto-juvenil nas tarefas domésticas pode ser uma maneira de economizar despesas. “Na verdade, se une o útil ao agradável. Os filhos ficam mais independentes”, opina Lilian.
Nesse contexto, ressalta a psicóloga, é fundamental ter bom senso para não sobrecarregar a criança ou adolescente e também não deixá-la crer que todos darão tudo por ela. “A educação para a vida começa em casa e, quanto mais cedo eles forem inseridos na sociedade, mais terão chance de sentir-se integrados e motivados”, avalia Cláudia.
De acordo com ela, cabe aos pais a função de entusiasmar e atribuir aos poucos pequenas tarefas domésticas, tornando-as interessantes. “É ideal que eles acompanhem os filhos, elogiando, explicando com paciência e persistindo até que as crianças possam realizar a atividade sozinha.”.
Tal postura pode contribuir ainda no aprendizado e desempenho na escola, destaca a psicóloga.
“A criança comprometida é ativa e vivencia toda a dinâmica escolar com prazer e interesse. Todos saem ganhando com isso”, pontua.