07 de julho de 2026
Ser

Na ante-sala do poder

Da Redação
| Tempo de leitura: 11 min

“Por trás de todo grande homem, sempre há uma grande mulher.” Comparado à administração pública, o ditado popular pode se muito bem aplicado ao trabalho de Fujika Kassai Fernandes Silva, que atua há mais de duas décadas nos bastidores do poder municipal. Secretária do prefeito de Bauru, Tuga Angerami, ela é formada em serviço social e também conta com experiência em diferentes áreas da prefeitura, como jurídico, Cohab, Emdurb, Corregedoria, Sebes e Administração.

Em 1983, Fujika assumiu a função de secretária do ex-prefeito Edson Gasparini, que faleceu no mesmo ano e teve seu posto ocupado por Tuga, seu vice, na época. Fujika se aposentou em 1997 e dois anos mais tarde ajudou a fundar a Associação dos Pais de Filhos com Síndrome de Down, compartilhando com outros casais sua experiência com a filha Marina, 21 anos, portadora da deficiência.

Mas durante esse período, Fujika continuou fazendo parte da equipe do atual prefeito. “Tuga era deputado e me chamou para trabalhar em sua assessoria parlamentar. Quando seu mandato terminou, achei que havia encerrado minha ‘correria’ profissional”, conta ela, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade. Ela não imaginava, porém, que seria novamente convidada a atuar como secretária de Tuga.

Proposta aceita, desde o ano passado, Fujika divide seu tempo entre a família e a carreira profissional, função desempenhada com muita força, dedicação e paciência - características herdadas de seus pais, imigrantes japoneses que vieram ao Brasil para trabalhar nas lavouras de café.

“Eu os considero realmente vencedores porque vieram do outro lado do mundo, sem conhecer o idioma e os costumes. Depois de ficar cerca de seis anos em um cafezal, meus pais fundaram a Fonte Santa Cecília e tempos depois a indústria de bebidas King”, conta Fujika, que também é exemplo de sucesso, seja na família, na convivência com as pessoas ou nos bastidores do poder.

Jornal da Cidade - A senhora é filha de imigrantes japoneses e traz princípios milenares do Oriente em sua formação. De que forma aplica isso no cotidiano?

Fujika Kassai Fernandes Silva - Há provérbios bonitos que fazem parte da minha formação, como: “não façam a ninguém o que não querem que façam com você.”; ou “quando o pássaro desce ao rio para beber água, não deixa a água turva.”; ou “quanto mais o trigo amadurece mais pende a cabeça.”.

No dia-a-dia esses provérbios são básicos. Na prefeitura, por exemplo, atendo desde a pessoa mais simples, que deseja uma cesta básica, até pessoas da esfera governamental, estadual ou federal. Tenho que passar credibilidade, seriedade, respeito, não importa a quem seja. E tudo o que falo ou faço reflete a imagem de uma administração.

JC - Como teve início sua carreira profissional?

Fujika - Estudei em escola pública, fiz o ginásio, curso de magistério na escola estadual “Ernesto Monte” e depois fiz faculdade de serviço social. Ao mesmo tempo que fiz vestibular para serviço social, prestei concurso para a prefeitura. Na época, havia o sistema de apenas um período. Então, fazia a faculdade de manhã e ao meio-dia entrava na prefeitura. Comecei numa área interessante, que é o departamento de comunicação e documentação do setor jurídico, onde se datilografava leis, decretos e se fazia todo o expediente, que, na época, centralizava-se no setor. Então aprendi esse be-a-bá da redação oficial. Trabalhei um pouco no protocolo e, quando me formei, pedi para atuar como assistente social; fui transferida para a Cohab e lá aprendi tudo, desde assistência social à análise sócio-econômica. Além disso, trabalhei no escritório técnico, que hoje é a Secretaria de Planejamento (Seplan) e na Emdurb, como secretária do presidente. Ali foi uma escola da vida porque era uma empresa que estava começando. Não havia assessoria de imprensa. Eu precisava convocar a mídia quando o presidente iria dar entrevistas, ensinava a copeira como servir o café na hora e estava presente nas concorrências, fazendo as atas da reunião na hora.

JC - De que forma se tornou secretária do prefeito Tuga Angerami?

Fujika - Em 1983, Edson Gasparini foi eleito prefeito e fui requisitada para ser sua secretária. E foi no gabinete que eu conheci o Tuga, que era vice-prefeito. Gasparini faleceu em novembro do mesmo ano e Tuga assumiu. Aí, eu permaneci no cargo de secretária do Tuga até 1988. Desta vez, sou novamente secretária de Tuga. Me aposentei em 1997, época em que Tuga era deputado. Nesse período, porém, ele me chamou para trabalhar em sua assessoria parlamentar. Quando o mandato de Tuga terminou, achei que havia encerrado minha “correria” profissional.

JC - A senhora passou a se dedicar a outra atividade?

Fujika - Minha filha Marina tem síndrome de Down e, em 1999, fui convidada a participar de um grupo de pais que tem filhos com a síndrome. Achei interessante porque minha filha já estava com 14 anos e minha trajetória foi solitária em termos de trocar experiências com outros pais. Por mim, pela orientação das pessoas, eu já tinha feito minha trajetória com a Marina, sua inclusão social e escolar, mas a minha experiência poderia ser útil para alguém e foi com esse intuito que comecei a participar do grupo. Acabamos formando a Associação dos Pais de Filhos com Síndrome de Down. O principal objetivo do grupo era o apoio aos novos casais, porque poucas pessoas sabem o quanto é dramático receber a notícia de que seu filho tem síndrome de Down. O mundo sempre se prepara para ter vencedores. O pai espera que o filho seja seu sucessor. A mãe, por sua vez, quer que seu neném seja uma criança perfeita. No momento em que ele nasce e se tem a notícia de que seu filho tem uma deficiência, há um choque violento, principalmente se o casal não está preparado ou sabe o que é a síndrome.

JC - No seu caso, como foi receber essa notícia?

Fujika - Como meu marido é ocidental, a Marina é mestiça e nasceu com olhos puxados, a principal característica dos portadores da síndrome de Down. Tive parto normal, meu bebê teve seus primeiros reflexos e peso normal, por isso acho que o médico não percebeu. Fui para casa e, quando a Marina tinha quase um mês, outro médico disse que havia uma suspeita porque minha filha tinha algumas características da síndrome. Quando fizemos o cariótipo, isso foi confirmado. Ela já tinha 2 meses e começamos o trabalho de intervenção precoce, com fonoaudiologia e fisioterapia, porque os Downs nascem com a musculatura mais flácida, a língua um pouco mais comprida e é preciso ter todo um trabalho de fono, além de outros cuidados, como utilizar o bico da mamadeira correto, existe um modo especial de amamentar e a maneira certa de carregar o bebê. E tudo isso é necessário para que haja pouca diferença de uma criança Down com outra que não tenha nada. A Marina começou a andar com 1 ano e 6 meses e a falar como outra criança dessa idade. Com 1 ano e 10 meses, ela já estava preparada para entrar no maternal.

JC - Como a arte ajudou no desenvolvimento da Marina?

Fujika - Eu gosto de pintura e, na hora de decidir uma carreira, se dependesse de mim, talvez tivesse seguido essa profissão. Só não fui porque minha mãe disse: “Artista só fica rico depois que morre e você vai ter que lutar para sobreviver.” Além da escola, a Marina sempre teve uma professora particular, que observou que ela gostava muito de desenhar e pintar. Procurei uma escola de pintura e foi interessante porque, em uma delas, uma adolescente me atendeu e disse: “Aqui não é escola para criança especial e a professora não tem conhecimento especializado para lidar com ela.” E eu disse: “Não precisa, porque minha filha vai entender tudo o que a professora fala. Ela ouve, enxerga e só quer aprender a pintar.” Mas a escola não aceitou. Depois, minha professora de pintura, a Sumiê Komono, me indicou a artista plástica Mara Mazetto. Ela me disse que nunca havia lidado com pessoas com síndrome de Down, mas pediu que eu explicasse e que iria tentar. O que eu acho importante na vida da pessoa com deficiência é isso: todo profissional, geralmente, prefere fazer aquele ”arroz com feijão” que aprendeu na faculdade. Aquele que se destaca encara o desafio de aceitar algo diferente, como foi o caso da Mara.

JC - A senhora atualmente é presidente do Comude. Como entrou para o conselho?

Fujika - A vida, às vezes, nos coloca frente a tantas coisas... Eu assumi o Conselho Municipal dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Comude) em julho de 2004. O Takao Kajino estava cumprindo seu segundo mandato e não poderia continuar. Ele precisava de alguém que desse continuidade ao seu trabalho e eu entrei como representante legal da Marina. Agora, vamos começar a realizar uma campanha de conscientização da população em relação aos portadores de deficiência.

JC - Como será esse trabalho?

Fujika - Em abril, haverá uma renovação da frota de ônibus. Serão 50 ônibus com plataforma adaptada para deficientes, que atenderão a cidade toda. Os usuários precisarão ter paciência porque toda vez que houver uma pessoa com cadeira de rodas no ponto vai demorar mais para ela subir e se acomodar.

JC - Sua sala se localiza ao lado do gabinete do prefeito. Nesse período como secretária, a senhora já presenciou alguma situação diferente ou pedido inusitado?

Fujika - Um dia ligou uma pessoa e disse: “Deixa eu falar com o Tuga. É a esposa dele.” E eu pedi para que ela colocasse a esposa dele na linha. A mulher reafirmou que era esposa dele. Mas eu respondi: “A senhora está dizendo que é a esposa dele, mas eu conheço a voz dela e o jeito dela falar. Sinto muito mas a senhora não é a esposa dele.” A mulher desligou na hora. No gabinete, eu atendo ligações de todos os tipos. Se for contar, são cerca de 50 ligações por dia. Mas há algumas coisas interessantes: em um ano e três meses que estou aqui, umas três pessoas ligaram para agradecer e isso é muito pouco. Um dia, época em que a coleta de lixo estava atrasada, recebi uma ligação de um senhor reclamando do atraso e dizendo que se até aquele dia o lixo não fosse recolhido, ele iria alugar um caminhão, coletar tudo o que conseguisse e levaria até a prefeitura. Aí, eu liguei para a Emdurb, que me comunicou que o bairro dele já estava no esquema de coleta. Depois de umas três ou quatro horas, esse senhor me ligou para agradecer, dizendo que o caminhão havia acabado de passar e sua rua estava limpa.

JC - Então, existem pequenas decisões que a senhora precisa tomar sem passar para o prefeito?

Fujika - Sim. A prefeitura é uma máquina e, quando o Tuga me disse que eu iria voltar à administração com ele, entendi que era preciso alguém que tivesse visão global de como deve funcionar a máquina que é a prefeitura. Uma coisa depende da outra e o fato de eu ter começado no setor de correspondências, leis e decretos me ajudou porque é complicado colocar no gabinete alguém que nunca trabalhou na prefeitura.

JC - Quais experiências a senhora destaca como mais importantes em sua convivência com Tuga?

Fujika - A convivência com ele me fez respeitá-lo e admirá-lo. O Tuga é uma pessoa idônea. Considero-o um ser humano brilhante como pessoa, doutor em psicologia, professor e político. Ele enxerga longe e rápido. Tem perfil diferente de político porque traz uma educação de berço. Por exemplo, sendo o anfitrião, ele nunca levanta antes da visita. E isso nos dificulta em relação a audiências marcadas com duração de meia hora ou uma hora. A pessoa que consegue entrar na sala do prefeito e sentar, demora mais porque o Tuga conversa muito bem e a visita não quer levantar. Aí, as outras audiências vão se acumulando. Muitas vezes, eu tenho que interromper dizendo ao prefeito que a pessoa de determinado horário já está aguardando. Com essa fala, espero que a pessoa se levante, mas algumas vezes isso não ocorre. Trabalhar com o Tuga é gratificante porque ele é um exemplo de vida.

JC - E como a senhora avalia sua trajetória de vida?

Fujika - A maior virtude que Deus me proporcionou é a paciência que eu precisei ter ao longo da minha vida. E hoje eu exercito essa paciência não com a Marina, mas no dia-a-dia da prefeitura, com os tipos de pessoas, telefonemas e pedidos absurdos que, às vezes, ouço. Para mim, perder a paciência é raro. Aprendi que a gente deve enfrentar os desafios que a vida nos coloca, dando o máximo de si em tudo que se faz e tirando uma lição positiva de cada situação.