07 de julho de 2026
Ser

Sinto saudade


| Tempo de leitura: 3 min

Hoje, já com os cabelos de grisalhos para brancos, resolvi cravar meus olhos para o passado, conduta esperada nesta etapa da vida e que nos faz nostálgicos, afastando os neurônios queimados pela idade, assoprando a poeira do esquecimento, revirando todos esses anos de cabeça para baixo. Retirei do velho baú da memória sentimentos antigos, “descorados” pelo tempo, esquecidos num canto qualquer, mas que insisto vivenciá-los. Não sei porque teimo retê-los no pensamento. Será obsessão?! Masoquismo?! Coisas de adolescência tardia?! Pouco importa essas indagações agora. Na minha idade, não me permito censuras desse tipo.

Passei a recordar da adolescência, meus 16 anos. Ouvia os Beatles, como fazia todos da minha geração, sonhando com a garota, a mesma que numa tarde de outono disse “sim” à minha tímida pergunta... De “selinhos” (hoje banalizados) no cinema ou no sofá da sua casa; de mãos dadas pelo bairro ou enroscadas em intricados sutiãs cheios de presilhas e elásticos; de bola-queimada na rua ou “acrobacias” numa velha bicicleta para impressioná-la; de promessas irrefletidas...

Então, percebi, mesmo naquele pouco de tempo que “ficamos” (como dizem agora), que ela sentiu algum sinal no corpo, alguma informação do seu destino sexual de fêmea, alguma mensagem do DNA. Recordando minha impressão de adolescente, tenho certeza de que nossos olhos viam a mesma coisa, um no outro, mas há quem diga, indiferente a tudo, que não passou de criancice e o melhor é esquecer...

A juventude chegou marcada de seqüelas emocionais deixadas por uma grave enfermidade, graça a Deus, superada. Então, como dedicado acadêmico das “arcadas”, preocupava-me com a questão da desigualdade social do nosso País, assunto que, a exemplo de agora, também não despertava a atenção da maioria dos “franciscanos” (como nos chamavam).

A discussão só ficava um pouco acalorada após as aulas, sempre no bar do Portuga, acompanhada de alguns chopes com bolinho de bacalhau até alguém gritar: que saco, chega! Vivi e gozei os anos dourados da vida acadêmica, desde o primeiro instante. Na grande noite de gala - da colação, do baile -, vi, em cada formando, a satisfação do dever cumprido, a alegria dos pais, dos amigos... Estava ao lado de Beth, minha madrinha, e, num momento, viajei até a tarde daquele outono distante e falei comigo: Ah, se ela estivesse aqui, eu, orgulhoso, ostentando o “canudo” da USP, lhe diria: viu, o menino pobre venceu! Bobagens...

Do Largo eternizaram a saudade dos companheiros, dos queridos mestres e dos seus ensinamentos que norteiam a minha vida.

De velho moço transformei-me no profissional sisudo de agora, respeitado pelos meus pares, mas, apesar de toda a rotulada seriedade, balanço diante da presença do “fantasma” do adolescente que, ao lado dela, vez ou outra ressurge em meu pensamento, remexendo minha memória e fazendo-me reviver sentimentos perdidos no tempo.

Como escreveu Ferreira Gullar outro dia, num genial poema, que explica indiretamente o que tento falar: o amor é algo “feito um lampejo que surgiu no mundo/ essa cor/ essa mancha/ que a mim chegou/ de detrás de dezenas de milhares de manhãs/ e noites estreladas/ como um puído aceno humano/ mancha azul que carrego comigo como carrego meus cabelos ou uma lesão oculta onde ninguém sabe” e assim, obstinado, acredito nas tolices de amor escritas um dia pela “menina de tranças”.

O imaginário cria cenas etéreas, mas frágeis e que se evaporam ante a mais débil ameaça. Meras divagações... O melhor é desfazer-se de certas lembranças, embora creio que, de algum lugar do passado, o “adolescente” ressurgirá e, por certo, lá estarei para recepcioná-lo, mesmo sabendo que o tempo não é algo que possa voltar e que não importa em quantos pedaços seu coração foi partido. O mundo não pára para que você o conserte.

zenittt2006@yahoo.com.br