O mau aproveitamento da biomassa da cana-de-açúcar no Brasil foi a principal crítica do engenheiro e diretor do Instituto Nacional de Eficiência Energética no Rio de Janeiro, Osório de Brito, em palestra que ministrou ontem, em Bauru, na abertura do projeto “Cresce Brasil”. O evento, organizado pela Federação Nacional dos Engenheiros (FNE), tem o objetivo de elaborar um plano nacional de desenvolvimento com base no tema energia. A proposta será entregue aos candidatos à Presidência da República e aos governos de Estado nas eleições deste ano. O encontro ocorreu na Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos (Assenag) de Bauru.
Brito aponta o desperdício da biomassa como a causa fundamental do fracasso do sistema energético brasileiro, o qual considera ineficaz e insuficiente. Para ele, a situação do setor é reflexo da escassez de políticas públicas na área.
“O Brasil sempre teve capacidade para autoprodução, mas nunca teve incentivo. Hoje, podemos dizer que os incentivos existem, mas motivados por uma série de razões, como o medo que o empresariado tem de um novo racionamento de energia”, observa.
Brito prevê a possibilidade de “apagão”, assim como ocorreu em 2002, a partir de 2009, principalmente se os empresários deixarem de investir na produção de energia, se o rigor dos licenciamentos ambientais endurecer ainda mais e se o Produto Interno Bruto (PIB) do País começar a crescer.
Ainda segundo ele, a alternativa mais viável para aumentar o índice de auto-suficiência energética do País e evitar a falta de energia é o aproveitamento racional da biomassa da cana.
“Precisamos deixar de desperdiçar energia. E o caminho para isso é a utilização da biomassa. Não podemos mais continuar com esse desperdício absurdo, que é hoje o maior exemplo de ineficiência que o Brasil tem”, completa Brito.
Usina nuclear
O governo pretende viabilizar o funcionamento da usina nuclear Angra 3, no Rio de Janeiro, com a finalidade de fomentar a produção energética do País. Embora as duas tentativas anteriores - Angra 1 e Angra 2 - tenham fracassado, Brito acredita que é viável apostar em mais essa.
Conforme informou, todos os equipamentos que compõem a usina já estão estocados. O investimento para a manutenção do material, diz ele, é pequeno se comparado ao valor necessário para construir uma usina do mesmo porte.
Para o engenheiro Carlos Monte, que também foi um dos palestrantes do encontro, a questão energética no Brasil não pode ser resumida à ineficiência do sistema. Devem ser levados em consideração a necessidade de um crescimento da oferta e de um uso mais eficiente das alternativas de energia, as quais são complementares, como a hidrelétrica, a proveniente da biomassa e a energia decorrente do petróleo e do gás.
“As soluções que têm de ser adotadas passam pela adoção de uma política geral energética, que contemple a possibilidade do uso dessas diferentes alternativas e que utilize o preço e as condições de oferta e de demanda, de forma a estimular a solução mais eficiente”, explica.
Outra questão ressaltada por Monte é a geração distribuída, método de produção próxima aos centros de carga, o qual evita o custo de transmissão. “Todas essas medidas, aliadas à busca de novas alternativas na Amazônia e à pesquisa sobre futuras fontes de energia que a humanidade vai usar, como é o caso do hidrogênio, vão levar o Brasil a uma situação muito boa. Se nada de novo for descoberto, teremos uma permanência no mundo do petróleo e do gás assegurada por um período de pelo menos 20 anos”, completa o engenheiro.
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Adesão
O presidente do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp), Murilo de Campos Pinheiro, diz que o movimento “Cresce Brasil” tem a adesão maciça da categoria e que o seminário vai compor o congresso nacional do setor.
“Tudo isso faz parte de um processo de crescimento do País, de desenvolvimento, de mais engenharia. Vamos discutir as questões apresentadas, as propostas de energia, para depois apresentá-las aos candidatos à Presidência e ao governo dos Estados”.
O encontro de ontem em Bauru reuniu engenheiros de todo o Estado de São Paulo. Até o mês de agosto, dez seminários vão ocorrer em todo País, sendo cinco deles no Estado de São Paulo. Além de Bauru, também receberão o evento Campinas, São José do Rio Preto, Santos e Taubaté.