09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Bauru: um olhar sobre a ferrovia


| Tempo de leitura: 4 min

Todo apreciador da história deveria ler a oportuna publicação da Unesp "Nos Trilhos da Memória: Trabalho e Sentimento", uma série de entrevistas com ex-ferroviários da Companhia Paulista e Fepasa. A pesquisa, coordenada pelo prof. dr. Célio José Losnak, é resultado de uma parceria de ciências humanas - Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp (câmpus de Bauru) com a Secretaria Municipal de Cultura. Depois de 18 meses de trabalho, com a colaboração de funcionários daquela secretaria municipal e de estudantes da citada universidade, foi editado o livro - primeiro volume de um vasto material colhido e ainda não inteiramente analisado.

São 410 páginas de interessantíssimos relatos sobre um ontem muito próximo, ligado à classe ferroviária, mas capaz de elucidar parte do desenvolvimento surpreendente desta Bauru emblemática, hoje uma cidade cortejada por variados segmentos sociais como empresários, artistas e universitários de todos os locais do Brasil.

Ao entrar em contato com a obra, o leitor, aos poucos, realiza um périplo saudável e doce pelos caminhos do passado, magnetizado por “causos” expostos num tom fortemente regionalista quanto divertido. Para aqueles que sabem ir além das palavras, o mergulho nas entrelinhas vai delineando aspectos geográficos, históricos, políticos e artísticos, que ultrapassam em muito a narrativa objetiva e descortinam horizontes ligados às origens do “boom” bauruense.

A cidade compreendeu a importância da ferrovia e, diferentemente de suas congêneres da região, propiciou a chegada dos trilhos e criou as condições básicas de vida para cerca de 10 mil empregados. Em contrapartida, os ferroviários fomentaram o comércio local, engrossaram, através de seus filhos, as fileiras principalmente do ensino básico, deram vida e movimentação aos sindicatos, trazendo dinamismo a Bauru e pincelando com cores diversas a silhueta da cidade-botão, entreaberta para seu grande destino.

A vida dura e ao mesmo tempo lúdica dos ferroviários deixa entrever momentos sociais de penúria, de salários apertados, de economia forçada, mas, também, de divertimentos sadios como as pescarias e caçadas com os amigos, de celebração de bodas, de nascimentos e de perdas. Não se iludam os que pensam que a vida desses heróis foi fácil. Mágoas, tristezas e ressentimentos, muitas vezes causados por injustiças patronais, trabalho e disciplina rígidos, forjaram o caráter dessa classe pobre, humilde e responsável, calejada no cadinho da luta pelo sustento da família. Se Euclides da Cunha asseverou, numa frase célebre, que o “sertanejo é antes de tudo um forte”, outra coisa não se poderia dizer, com mais propriedade, desses magníficos trabalhadores.

O crescimento de Bauru sofreu influência direta da ferrovia. A compra de terrenos para a construção de moradias mais próximos do local de trabalho provocou uma corrida à então periferia da cidade. Esses lotes mais baratos, mais de acordo com as condições econômicas de cada um, evitavam também o deslocamento do trabalhador, que, além de ganhar alguns minutos de sono, economizava o dinheiro com transporte. Essas casas formaram muitas vilas que, até hoje, em sua quase totalidade, continuam sendo habitadas por ex- ferroviários.

Quem lê "Nos Trilhos da Memória" com olhar atento poderá pinçar variados ângulos políticos da história bauruense, fortemente influenciada pelos sindicalistas. Irmanados pelo espírito de classe, quando uma greve estourava, quase todos corriam para a sede do sindicato, numa demonstração inequívoca de que a paralisação não justificava a inércia ou o afastamento do trabalho. Nota-se até uma cândida ingenuidade por parte de alguns ferroviários, contagiados pela vinda a Bauru do romancista Jorge Amado e do líder do Partido Comunista, Luís Carlos Prestes. Realizando comícios na cidade, ambos influenciaram nitidamente aquela classe sofrida, provavelmente com acenos, num futuro não muito distante, para a partilha e disponibilidade de bens segundo as necessidades individuais. Alguns, feridos por injustiças dos superiores, machucados por ordens, às vezes, draconianas, por punições muito severas, tratavam de passar adiante a bandeira de redenção do trabalhador, ou filiando-se ao partido comunista ou fazendo propaganda boca-à-boca.

Há muito mais para colher-se nessa excelente publicação. Daí, todo empenho para a leitura desse material, esperando que a iniciativa dessa pesquisa e a conseqüente publicação contagie outros centros urbanos e abra um leque de prospecção sobre nossas origens e, sobretudo, incite à valorização do homem comum, partícipe inegável da história. Já dizia Shakespeare, em tom poético: “Há uma história na vida de todos os homens.” É fato. A frase tem um significado mais amplo na era democrática. Como enxergou muito bem John Luckacs: “Todo acontecimento é um acontecimento histórico; toda fonte é uma fonte histórica; toda pessoa é uma pessoa histórica”. Daí a importância desses funcionários aposentados da ferrovia e dos quais resultou o livro em epígrafe. A história, como memória da humanidade, além de obrigar-se a valorizar o passado registrado, não poderá concomitantemente negligenciar ou subestimar o passado lembrado. É isso.

Maria da Glória De Rosa