No último domingo, durante minha visita à feira-livre, fui chamado pelo amigo Edmur Geraldo que, visivelmente emocionado, informava a prematura morte do grande amigo Célio Gonçalves. Foi, realmente, um choque. Meu primeiro contato com o Célio foi em meados dos anos 50 do século passado, quando eu dirigia o Grande Jornal Falado G-8, transmitido pela Bauru Rádio Clube. Lá, o Célio dava os seus primeiros passos no mundo radiofônico bauruense e, por sugestão da direção da emissora, ele era testado no noticioso. Começava uma amizade que durou mais de meio século. Transcorridos dois anos, deixei a G-8 e fui para Rádio Terra Branca e, por algum tempo, não tive maior contato com o Célio.
Posteriormente, em fins dos anos 50, com o surgimento da TV Bauru-Canal 2, outra iniciativa de João Simonetti, voltei a me encontrar com o Célio que já era um nome de destaque, não apenas no rádio, mas também na televisão. Na qualidade de redator da revista 7 Dias na TV (São Paulo), que dedicava espaços a TV Bauru, a primeira emissora de televisão do Interior, eu comparecia com assiduidade às suas instalações à cata de notícias. Assim voltei a ver com freqüência o Célio. Inclusive, ele me fornecia em primeira mão muitas informações.
Decorrido certo tempo, deixei aquela revista e passei a me dedicar apenas ao Diário de São Paulo do qual era o redator regional. Acompanhava pela imprensa doméstica as atividades do Célio, em seus afazeres que eram cumpridos com perfeição. Foi quando o Carnaval em nossa cidade começou a ganhar notoriedade no Interior e, nos bastidores desse imponente acontecimento, lá estava a figura maiúscula de Célio Gonçalves em toda a organização dos tradicionais festejos. Seguia eu de perto aquela tarefa difícil do Célio, quanto ao planejamento daqueles carnavais. Com muito tato, educação e profissionalismo, ele enfrentava os problemas que surgiam, que não eram poucos, pois todas as escolas de samba que desfilavam queriam ser as vencedoras. Assim, durante muitos anos, saia prefeito e entrava prefeito, lá estava o Célio embaixo de “chuvas e trovoadas”, mas, ao final, era ele o vitorioso.
Nos primeiros tempos do Bauru Ilustrado, quando me encontrava com Célio em diferentes situações, ele, além de me cumprimentar pela iniciativa, fornecia fotos dos seus arquivos, bem como informações necessárias para a devida publicação.
Em 1993, quando convidado pelo prefeito Tidei de Lima, assumi direção do Departamento de Proteção ao Patrimônio Histórico e Cultural da Secretaria de Cultura e passei a ter novamente um maior contato com o Célio. Com regularidade, “trocávamos figurinhas”, ou seja, em nossas atividades na Prefeitura, nos diversificados setores, porém, intimamente ligados, trabalhávamos em conjunto.
Certo dia, procurei o Célio e pedi a sua colaboração para que fizéssemos um audio-visual sobre a história de Bauru. Eu conhecia a sua habilidade na produção daquele trabalho e nem precisei insistir, pois de imediato ele concordou. Separei as fotos e redigi os textos, tudo sob a sua orientação e, com aquela habilidade e competência que Deus lhe deu, quando das comemorações dos 80 anos da praça Ruy Barbosa (1994), pudemos apresentar o maravilhoso trabalho por ele preparado. Passada aquela fase na Prefeitura, algumas vezes recebi a visita do Célio em uma entidade que eu dirigia, a qual preservava e divulgava o passado da Sem Limites. Novamente trocávamos idéias. Ele me fornecendo preciosos materiais acompanhados de todas as informações e eu colaborava com esclarecimentos e fotografias que ele usava em seus audiovisuais.
Solicitado por diferentes entidades, nas mais diversas e sofisticadas promoções dentro da vida social, esportiva, empresarial, cultural e educacional, Célio Gonçalves foi, em toda a história de Bauru, o mais perfeito mestre de cerimônias. Dominando com incrível facilidade o nosso idioma, sempre desenvolveu um português correto, não somente frente aos microfones, como também quando publicava seus artigos em jornais e revistas.
Com o decorrer do tempo, poucas vezes pessoalmente nos encontramos e apenas através de telefonemas é que conversávamos. Bauru cresceu assustadoramente e nós, em nossas atividades, já não nos víamos com tanta assiduidade. Um dia, ao me dirigir de carro a certo lugar, conversava com a minha mulher e dizia que há muito não via o Célio. Porém, naquele momento, por incrível coincidência, passávamos defronte à sua residência, justamente no instante em que lá chegava e foi quando a minha mulher falou: “Você disse que não vê o Célio há tempos, olha ele entrando em sua casa”. Isso aconteceu há alguns meses e foi, infelizmente, a última vez em que vi o “irmão” Célio Gonçalves. Guardo dele imorredouras recordações. Foi um grande amigo. Foi gente! Nossa amizade durou mais de 50 anos. Nessa trajetória, sinto imenso orgulho de ter realizado muito em pról da memória de Bauru, mas em parte com apoio, incentivo e supervisão do amigo de todos nós, o inesquecível Célio Gonçalves.
O autor, Luciano Dias Pires, é relações públicas, historiador e editor do Bauru Ilustrado