Compositor, maestro, arranjador, instrumentista, um verdadeiro arquiteto musical. As construções de Francis Hime a que seu público está acostumado são robustas, suntuosas, com pé-direito alto para abrigar tantas camadas musicais quanto é possível com delicadeza e harmonia. No entanto, o show que ele apresenta hoje no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves é mais intimista, como um ambiente à meia-luz, apenas com voz e piano, ainda que belo como qualquer produção do artista.
O carioca vem a Bauru em mini-turnê de lançamento de seu novo CD, “Arquitetura da Flor” (Biscoito Fino), que chega às lojas nesta semana. “Esse já é o roteiro do show novo, com quase todas as músicas do disco e alguns sucessos, como ‘Atrás da Porta’, ‘Trocando em Miúdos’, mas só com piano e voz. É uma espécie de pré-lançamento que estou fazendo pelo Interior paulista e não podia deixar de passar por Bauru”, comenta, em entrevista ao JC Cultura. “Depois, lá por maio, viajo pelo Brasil com a banda”, completa.
O próprio “Arquitetura da Flor” é um projeto de contraponto à grandiosidade orquestral que permeou a trajetória de Hime como compositor e também arranjador. O disco explora basicamente as possibilidades de um quinteto com piano, baixo acústico, bateria, guitarra e percussão, com uma ou outra intervenção de sopros ou violoncelo. “Esse é meu disco mais despojado em muitos anos e eu quis apostar nessa formação mais transparente, no sentido de valorizar de uma ou outra forma as harmonias, destacando as canções como matéria bruta”, explica.
De acordo com o músico, a diferenciação do disco começou já na pré-produção. Ao contrário de outros trabalhos, em que a gravação em estúdio era somente a finalização de todo o conceito já arquitetado com antecedência, com estruturas de arranjos prontas, dessa vez Hime chegou ao estúdio aberto às possibilidades. “Eu deixei que os arranjos tomassem os caminhos, com espaço para improvisos, detalhes de cada instrumento, um acorde de violão, um comentário de piano. Por isso ele se tornou um disco diferente dos anteriores”, orgulha-se.
Já definido por algum camarada como um dos parceiros mais promíscuos da MPB, ele segue a regra. “Arquitetura” traz seis novas composições em conjunto com o poeta Geraldo Carneiro – incluindo “A Invenção da Rosa”, que abre o disco e forneceu o título ao projeto, “Gozos da Alma”, já lançada por Leila Pinheiro, “A Musa da TV”, “Mais-que-Imperfeito”, “Mar do Amor Total” e “História de Amor”, que tem participação de Nina Becker.
“Sem Saudades” tem música de Hime para um antigo poema de Cartola, presente de uma neta do sambista ao maestro. A gravação ganhou a voz de Zélia Duncan, em uma parceria despojada e deliciosa. Há também “Cadê”, sobre a poesia de Simone Guimarães, e “Do Amor Alheio”, com letra quase minimalista de Abel Silva. Parceira de vida de Francis, Olivia Hime entrega com o marido “Desacalanto”, delicada melodia para uma letra sobre a morte.
Há ainda as regravações de “Palavras Cruzadas”, feita com Toquinho na década de 80, e “A Dor a Mais”, última colaboração de Hime com seu primeiro parceiro, Vinicius de Moraes. “São quase todas inéditas, tirei de um grande baú dos últimos anos (risos). Gosto de compor com muitos parceiros, gosto dessa variedade e de chamar pessoas diferentes para tocar e cantar comigo”, afirma.
Sobre o formato da mini-turnê, Hime se diz confortável sozinho no palco. “Esse é um esquentamento, até porque a sonoridade do disco seria com uma banda, um quinteto. Me sinto à vontade, posso ter o piano mais cheio do que naturalmente teria num show com banda, posso brincar mais. É interessante para testar o repertório novo”, diz.
• Serviço
Show de Francis Hime no Teatro Municipal Celina Lourdes Alves Neves, hoje às 21h. Ingressos a R$ 30,00 e R$ 15,00 (meia-entrada para estudantes, aposentados e professores da rede estadual), à venda na bilheteria do teatro (avenida Nações Unidas, 8-9). Mais informações: (14) 3235-1072.