10 de julho de 2026
Política

Delegado que saiu de Jaú ajudou a derrubar Palocci

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Durante dez anos a população de Jaú conviveu com ele e conheceu seu trabalho à frente da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) e Delegacia sobre Investigação de Entorpecentes (Dise). Nomeado seccional de Ribeirão Preto, Benedito Antonio Valencise ganhou projeção nacional ao declarar na CPI dos Bingos que tem provas para indiciar e até levar para a cadeia o ex-ministro da Fazenda Antônio Palocci no inquérito que apura o suposto pagamento de propina pela empresa Leão & Leão ao petista entre 2000 e 2002, período que era prefeito de Ribeirão Preto.

A saída de Palocci do Ministério da Fazenda proporcionou ao delegado uma chance a mais de concluir o inquérito, que se arrasta desde agosto do ano passado e contém nada mais nada menos do que 73 volumes e 14 mil páginas. Sem o foro privilegiado, Palocci responde processo agora pela Justiça comum – enquanto ministro respondia somente ao Supremo Tribunal Federal. “Ele pode ser intimado, interrogado e indiciado pela Polícia Civil”, afirma Valencise.

O delegado, que se tornou uma pedra no sapato dos petistas, pretende definir a data do depoimento de Palocci até a próxima semana. “Ele poderá ser ouvido aqui em Ribeirão Preto ou em Brasília, por carta precatória”, relata. A expectativa é que o depoimento ocorra em duas semanas.

Para o delegado, a situação está definida quanto ao indiciamento de Palocci. “Temos provas testemunhais, documentais e técnicas para isso. Eu só estou falando sobre o caso porque ele se tornou público a partir da CPI dos Bingos”, comenta. Na opinião dele, as provas são claras. “As provas são claríssimas. O trabalho que era atestado como realizado, provocando o superfaturamento, não era realizado. Mas o pagamento era 100%”, afirma.

Dentre as provas que ele diz ter, guardadas a sete chaves, Valencise enumera as principais. “O mapa da propina foi apreendido no computador da empresa Leão & Leão, em Ribeirão Preto. O mapa dos serviços de acordo com o processo de pagamento”, conta. O delegado explica que foram feitos levantamentos que comprovariam o superfaturamento.

“No ano de 2000, que era outro governo, varreu-se em Ribeirão Preto, 273 mil quilômetros. No governo de Palocci, em 2001, sem aumentar um palmo de varrição, o pagamento passou a ser de 544 mil quilômetros. Nos anos seguintes foram 540, 520 e 502 quilômetros”, aponta.

Palocci ficou à frente da prefeitura de Ribeirão de 2001 a 2002, quando deixou o cargo para compor a equipe do governo Lula. Foi substituído por Gilberto Magionni entre 2002 a 2004. “As fraudes tiveram prosseguimento com o substituto dele”, agrava o delegado.

Em 2005, na atual administração, sem diminuir um palmo de varrição, a medição caiu para 289 mil quilômetros, diz o delegado. “No período entre 2001 e 2004 nós tivemos as ordens de serviço falsas. São provas irrefutáveis”, garante.

Outra prova do inquérito, segundo Valencise, é a declaração dos moradores dos bairros apontados na cobrança do serviço de varrição. “Ouvimos os moradores dos bairros onde consta a varrição. Eles são enfáticos em dizer que o trabalho nunca aconteceu”, ressalta.

Para a administração da prefeitura na época, o acréscimo na medição foi batizado de varrição especial. “De fato era especial. Essa é uma das provas”, emenda o delegado. Para Valencise, pela dimensão do que ele apurou, seria impossível ser praticado por funcionários subalternos. “Segundo o depoimento do Rogério Buratti, ex-assessor de Palocci e ex-vice presidente da Leão & Leão, as fraudes eram coordenadas pelo próprio prefeito da época”, conta.

As buscas em repartições públicas, na empresa Leão & Leão renderam, segundo Valencise, a apreensão de documentos importantes que demonstrariam o envolvimento de todas as pessoas e a existência dos crimes.

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Acusação

O delegado Benedito Antonio Valencise prefere não comentar a possibilidade de condenação de Antônio Palocci por conta das investigações feitas pela Polícia Civil. Ressaltando que o caso será remetido ao judiciário, ele comenta apenas que a condenação poderá chegar a dez anos de reclusão.

Palocci pode ser indiciado por peculato (subtração de dinheiro por ocupante de cargo público), formação de quadrilha e falsidade ideológica. A pena cabível para todos os crimes, somada é de dez anos de reclusão.

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Licitação pública

O delegado de polícia Benedito Antonio Valencise deixou Jaú em junho de 2004 e assumiu a Delegacia Seccional de Ribeirão Preto, onde se tornou figura de projeção nacional ao trabalhar em casos polêmicos como as fraudes em licitações públicas que acabaram gerando a investigação das fraudes na varrição.

O trabalho teve início em agosto do ano passado. “Foi em uma investigação com interceptação telefônica feita pela Polícia Civil junto com o Ministério Público para apurar fraudes nas licitações envolvendo várias pessoas, inclusive o advogado Rogério Buratti. Ele acabou sendo preso e delatando todo o esquema de propina de Ribeirão Preto”, finaliza.