Menos de um mês depois do anúncio da principal candidatura contra a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a de Geraldo Alckmin (PSDB), dois documentos mostram que a igreja católica não quer ser coadjuvante na cena política em 2006.
Nesta segunda-feira, em Brasília, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou o documento “Eleições 2006”, uma cartilha que será distribuída para todas as dioceses do Brasil, com posições bem definidas sobre corrupção, reforma agrária e política econômica, entre outros temas.
Mas a ofensiva religiosa não se restringe à conscientização do voto e nem à igreja católica. Na quinta-feira, dia 30 de março, a Comissão Pastoral da Terra uniu-se a representantes de outras religiões – anglicana, luterana e metodista – para lançar uma nova versão de “A Igreja e os Problemas da Terra”, um documento de 1980 que ficou conhecido como “Carta da Terra”.
Renomeado para “Os Pobres Possuirão a Terra”, ele já foi assinado por 79 representantes, entre eles 55 bispos católicos. Eles tomam posição a favor das ocupações no campo, criticam o agronegócio, os transgênicos, e trazem recomendações para cada um dos três poderes em relação ao pagamento urgente da “dívida social”.
Eleições
O presidente da CNBB, dom Geraldo Majella Agnelo, deixou claro que a CNBB não apóia este ou aquele candidato, e que se trata de oferecer condições para que cada cidadão decida a seu modo, conforme as orientações da igreja. “Queremos que o julgamento não seja feito só pelos tribunais, mas pelo próprio povo, para que prescreva aqueles que já demonstraram que fizeram da coisa pública não um bem comum, mas a assumem para seus interesses de corporação”, afirmou.
Há, no entanto, uma crítica direta ao governo do presidente Lula. “O resultado das eleições de 2002 despertou grandes expectativas de transformação social”, diz o documento. “Aos poucos, o projeto de poder se sobrepõe à busca de um projeto de nação socialmente justa”.
Em trecho sobre os “desafios do contexto atual”, os bispos criticam a falta de transparência no processo de privatizações, ocorrido principalmente durante os governo tucanos de Fernando Henrique Cardoso, a corrupção e a impunidade. Colocam-se contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), que “pretende perenizar e institucionalizar a situação de excessiva dependência dos Estados Unidos”, com a qual, afirmam, é preciso romper.
Para Dom Agnello, há a necessidade de “rever o modelo econômico e o processo de mercantilização da vida”. Os candidatos, afirma, devem “reforçar a soberania da nação, democratizar o acesso à terra e ao solo urbano, ampliar as oportunidades de trabalho, proteger o meio ambiente e a Amazônia”.
Terra
A nova carta da terra, divulgada 26 anos após a primeira versão, aparece também no contexto de um ano eleitoral. Sobram críticas para todos os governos da última era democrática. Fernando Collor de Mello e Itamar Franco são descritos como presidentes que não tiveram política agrária, apenas seguiram os programas de José Sarney.
No primeiro FHC ocorrem os massacres de Corumbiara e Eldorado dos Carajás, e se cria o Ministério do Desenvolvimento Agrário. No governo Lula, como nos outros, os religiosos demonstram decepção.