09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Eldorado dos Carajás: 10 anos de impunidade


| Tempo de leitura: 2 min

Somamos nossa voz a de tantas outras pessoas para recordar que está fazendo 10 anos do massacre de Eldorado do Carajás. Essa história parece estar no passado, mas não, existem ainda os “sobreviventes”. O massacre ainda é o presente e o futuro dos mutilados dessa guerra que estão esquecidos pela nossa Justiça, pelos nossos governos e estados. Para quem não se lembra, o massacre de Eldorado dos Carajás ocorreu durante o conflito de 17 de abril de 1996, no sul do Pará. Dezenove sem-terra foram mortos e centenas de trabalhadores feridos pela Polícia Militar. O confronto ocorreu quando 1.500 sem-terra que estavam acampados na região decidiram fazer uma marcha em protesto contra a demora da desapropriação de terras, principalmente as da Fazenda Macaxeira. Os culpados desse massacre ainda estão soltos.

Hoje, são mais de 75 sobreviventes que precisam de atendimento médico, psicológico, cirurgias, fisioterapia e uma maneira digna de sobrevivência. Existe uma decisão judicial desde 1999 que prevê o atendimento dessas pessoas e não é cumprida por parte do Estado e esses mutilados seguem lutando para que a justiça seja feita. É difícil acreditar que dez anos depois do massacre existam pessoas com balas ainda alojadas no corpo, pessoas que não podem andar ou trabalhar pela sua falta de saúde. Pessoas que precisam de tratamento psicológico porque ainda sofrem com a lembrança da morte de familiares e amigos. Pessoas que não podem ouvir barulhos porque acham que são balas ou disparos de armas de fogo. O Brasil precisa encarar seus problemas e enxergar seus conflitos. Há 10 anos tivemos a chacina de 19 sem-terra e o início de um massacre para o restante daqueles trabalhadores. O massacre da injustiça, da violência, do esquecimento, da falta de vergonha.

É necessário o Estado brasileiro (governos municipais, estaduais e federal) resgatar essa dívida social e oferecer condições para que essas pessoas possam ter seus direitos garantidos. Precisamos evitar que fatos como esse se transformem em mais uma forma de eliminação dos mais empobrecidos. (Rosa Maria Morcelli - Instituto Terra Viva - terravivabr@uol.com.br)