Recentemente, o documentário “Falcão, meninos do tráfico” desnudou definitivamente uma dolorosa e estarrecedora realidade. Trata-se da condição desumana em que vive grande parte das crianças brasileiras, particularmente aquelas da periferia, envolvidas desde muito cedo com o narcotráfico.
Decorrente da humilhante situação sócio-econômica, mas particularmente da completa desestruturação familiar, elas, em geral, não têm pais e são alijadas do convívio em sociedade. Essas crianças não encontram, desde o nascimento, afeto e proteção familiar. Enfim, tornam-se presas fáceis para cooptação pelos criminosos que atuam no tráfico de drogas.
No mundo globalizado, competitivo, dominado pela mentalidade ultraconsumista e carente de valores, serão inexoravelmente tragadas pelo crime e, quase na sua totalidade, morrerão ainda muito jovens. Portanto, não é à toa que suas manifestações são de grande indiferença com os valores da vida e de banalização em relação à morte.
Paralelamente à divulgação deste documentário dramático, também ganharam espaço na mídia iniciativas gratificantes de ONG’s que empreendem permanentemente trabalhos sociais para a recuperação desses jovens. Seus programas baseiam-se em música, educação, esporte e outros elementos de inclusão.
Por enquanto, são as únicas propostas que apresentam alguns resultados realmente positivos, mas sabemos que esse processo de resgate da cidadania é difícil, depende de persistência e continuidade, além de amparo de um amplo programa social.
Uma coisa é certa. Todos nós, brasileiros, que assistimos ao documentário ficamos transtornados com a realidade desoladora e desumana. Também amargamos uma grande sensação de impotência e até de omissão, porque obviamente nenhum de nós, neste País, pode ignorar e achar que não é possível fazer algo para reverter situação tão triste e vergonhosa. Ainda mais nós, médicos, que temos contato freqüente com essas crianças, seja no trabalho ou mesmo fora dele.
A APM, direta ou indiretamente, tem se envolvido com trabalhos de voluntariado e cidadania, assim como vários de nós. Porém, após essa denúncia, temos a obrigação de abraçar essa causa, de forma parceira e criativa, a fim de lutarmos para recuperar, educar e dar afeto a essas crianças e ajudar a mudar esse quadro social, seja pessoalmente ou através de grupos já organizados.
Afinal de contas, a maioria de nós tem filhos e seria ridículo pensar que podemos ignorar tais fatos e nos esconder atrás de muralhas. Os números mostram que as ações sociais têm aumentado no Brasil, mas ainda estamos muitos atrás de outros países. No íntimo, cada um de nós sabe como fazer alguma coisa ou muito mais. Vamos agir. (O autor, Jorge Carlos Machado Curi, é presidente da Associação Paulista de Medicina)