08 de julho de 2026
Cultura

Entre o agora e a eternidade

Padre Beto *
| Tempo de leitura: 4 min

Depois do inesperado enfarte, o homem subiu aos Céus. O que era previsível, mas sobre o qual ele não se dedicara muito tempo para meditar, havia realmente acontecido. Ele havia morrido e realmente estava a caminho da tão falada e controvertida “vida eterna”. Sua cabeça esta a mil. Ele havia deixado algumas dívidas, alguns negócios ainda por resolver e começava a pensar naqueles a quem nunca havia dado atenção durante a correria do dia-a-dia. O que mais o surpreendia era o fato de que sua existência parecia lá na Terra eterna.

Com certeza, ele já havia estado em muitos velórios, simplesmente por um compromisso social, é claro. Afinal, quem gosta deste tipo de programa? Mas nunca havia pensado que, um dia, isso poderia acontecer com ele. Aos poucos, uma sensação de injustiça começava preencher seu coração. Afinal, por que agora? Ele estava prestes a se aposentar e aí então ele poderia fazer tantas coisas boas, não somente para si, mas principalmente para os outros. Ele estava repleto de boas intenções: quando fosse aposentado, iria visitar os “amigos”, aos quais não havia dedicado um tempo se quer, iria fazer aquela viagem que a esposa sempre sonhou e nunca conseguiu convencê-lo a fazer, iria realizar até mesmo ações sociais, ajudar alguma entidade que atendesse pessoas carentes.

Ok, honestidade nunca fora a sua grande virtude, mas a vida lá em baixo era difícil, e a concorrência o levava a fazer coisas que ele sabia que não deveria, mas era “obrigado”. No caminho para o céu, ele começou a pensar em seu próprio velório e sua primeira preocupação foi se sua amante atual teria a coragem de aparecer. Quais amigos estariam presentes e quem estaria satisfeito com sua partida.

Finalmente, ele chegou ao guichê de entrada para o céu. Nele havia um homem vestido de forma simples, mas de aparência muito simpática que lhe pediu os documentos. Imediatamente, ele se lembrou de sua certidão de batismo. Este sim seria um documento a apresentar, pensou o homem. Finalmente, ele iria utilizar aquele velho papel que só foi necessário para o casamento no religioso, um casamento que fora mais uma exigência da esposa do que dele próprio. Ao retirar a velha certidão de batismo e entregar ao simpático homem do guichê, lembrou-se de que havia estado pela ultima vez em uma igreja, quando estava em apuros financeiros e isso já fazia muito tempo.

O homem do guichê olhou para o papel, deu um amargo sorriso e lhe disse: “Sinto muito, mas o seu passaporte já está há muito tempo vencido!” Mesmo assim, o homem do guichê fez um gesto para que ele entrasse e continuou: “Mas fique calmo. O chefe aqui não se interessa por papéis. Conte a Ele um pouco de sua vida, esta sim tem para Ele grande importância!”

O núcleo da festa da Páscoa é, sem dúvida alguma, a celebração da vida. Em um sentido judaico-cristão, a Páscoa celebra a libertação de todas as formas de escravidão, a completude do ser humano, revelando a morte como uma passagem para “vida eterna”. Morrer é ressuscitar e viver é desenvolver-se em direção a ela. Desta forma, a maior festa do Cristianismo nos faz perceber que o viver não deve ser um ato mecânico, não pode ser uma realidade estática, mas sim um movimento qualitativo de mudança, um verdadeiro processo de constante transformação em busca de verdadeira vida.

A festa da Páscoa é, para nós cristãos, um momento significativo no qual relembramos que Deus ama a todos sem fazer distinção de cultura, religião, sexualidade, mentalidade ou prática de vida. Jesus Cristo é para todos aqueles que Nele acreditam um fantástico paradigma, ou seja, um modelo de vida que transforma radicalmente a nossa perspectiva de futuro. Suas palavras e ações são impulsos de transformação que nos indicam que Deus não nos deu a vida para morrermos, mas sim para vivermos eternamente. A nossa existência pode e deve ser preenchida com vida. A partir de nosso surgimento no mundo somos chamados a um processo de constante expansão, de viva interação com as pessoas, com o universo e contínua “trans-realização” do nosso ser a caminho da plenitude da vida.

A Páscoa é, na verdade, um convite para uma eterna vivacidade. O ser humano não nasceu para simplesmente existir, mas para viver intensamente. O segredo desta vida intensa está na descoberta de que Deus é amor. Foi amando que Jesus Cristo viveu e ressuscitou, e “nós passamos da morte para a vida porque amamos os irmãos” (1 Jo 3, 14). Quando perdemos o medo de amar, algo de mágico acontece em nossas vidas, ou seja, fazemos uma experiência concreta de mudança, de transformação da nossa realidade, enfim, vivenciamos, em nossa história, no aqui e agora, a ressurreição.

Neste sentido, a ressurreição possui uma natureza escatológica, ou seja, ela acontecerá em plenitude no futuro, através daquilo que chamamos de morte, mas pode desde já ser vivida no presente. À medida que procuramos nos libertar de nossas insensibilidades, de nossos medos, nos jogar nas mãos do Deus da Vida e transformar nossa existência em algo fraterno e humano, antecipamos, em parte, a futura ressurreição.

*Especial para o JC