Sua história é marcada por ações grandiosas e todo tipo de agressão sofrida ao longo de décadas. Mas o espírito teimoso, resistente, se sobrepõe e o rio Tietê, considerado um dos mais poluídos, insiste em viver. Seu percurso, desde a nascente sua foz, no rio Paraná, é uma prova de que o Tietê não aceita o destino facilmente e é capaz de buscar outros caminhos, mesmo que mais tortuosos, para garantir a vida.
Em meio à Serra do Mar, a 840 metros de altitude, numa poça d´água do lençol freático, em Salesópolis (SP), nasce o Tietê. Seu ponto de origem fica a apenas 20 quilômetros do mar. Poderia ter uma vida mansa, cumprindo a trajetória que corta o Estado. Porém, o Tietê encontra já no seu primeiro trecho um grande desafio. Sem conseguir vencer os picos rochosos rumo ao litoral, segue para o Interior. Percorre 1.100 quilômetros até o município de Itapura e deságua no rio Paraná, na divisa com o Mato Grosso do Sul.
Estudos geológicos datam a nascente do rio em 12 bilhões de anos, tempo em que o único obstáculo enfrentado era mesmo o itinerário às avessas. Os grandes feitos aconteceram nos séculos 16 e 17. O Tietê foi fundamental na interiorização do País. Era pelo rio que seguiam as expedições bandeirantes que fundaram vários povoados em Mato Grosso, Minas Gerais e Goiás. Na sua nascente surgiu o mais importante povoado: a vila São Paulo de Piratininga, a atual São Paulo.
Foi bebendo das águas do Tietê que a vila transformou-se na maior megalópole do Hemisfério Sul. Mas no decorrer do tempo, a população foi afastando-se da interação com o rio e passou a cometer as variadas agressões que acabaram por quase matá-lo. Durante décadas, o rio caudaloso, imponente de outrora, foi um depósito de dejetos industriais, agrotóxicos e resíduos domésticos recebidos logo após sua cabeceira, em Mogi das Cruzes.
Foi a recuperação de outro rio extremamente distante – o Tâmisa, na Inglaterra – que despertou para a possibilidade de recuperação do rio paulista. Em 1991, a Fundação SOS Mata Atlântica criou, com apoio da Rádio Eldorado, o Núcleo União Pró-Tietê. O objetivo era desenvolver projetos para a recuperação do rio Tietê, fortalecer a gestão participativa e a conservação dos recursos hídricos.
Neste período, o governo estadual iniciou os projetos de recuperação e levando os serviços de coleta de esgoto na região metropolitana do Estado em 80% e de tratamento, em 63%. A meta é chegar a 84% e 70%, respectivamente. Hoje estão em desenvolvimento os projetos de despoluição e de aumento da calha do rio.
Alguns resultados já podem ser dimensionados, de acordo com a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo. O total da carga de poluição no rio Tietê na região metropolitana do Estado, passou de 1.100 toneladas/dia, em 1990, para 675 toneladas/dia em 2005. A meta é chegar a 250 toneladas/dia em 2015.
Outro importante resultado é o recuo da mancha de poluição. Em 1990 a mandar chegava até Barra Bonita, cerca de 165 km da região metropolitana de São Paulo. Em 2005 avançava apenas até Pirapora, nos limites da Região Metropolitana. A meta, até 2015, é limitar a mancha de poluição entre Osasco e Aricanduva (trecho central do rio na RMSP).
Apesar dos avanços, o rio ainda precisa de muitas intervenções para se recuperar. Ao longo de seu percurso, de acordo com o Núcleo União Pró-Tietê, banha seis sub-bacias hidrográficas: Alto Tietê, Sorocaba-Médio Tietê, Piracicaba-Capivari-Jundiaí; Tietê-Jacaré; Tietê-Batalha; Baixo Tietê. Esta reportagem traz um pouco das condições e ações em cada uma delas.