09 de julho de 2026
Geral

Políticos são eleitos Judas em Bauru

Marcelo Ferrazoli
| Tempo de leitura: 5 min

O prefeito Tuga Angerami (PDT) e o escândalo do “mensalão” foram escolhidos pela população bauruense para a malhação do Judas, tradicional brincadeira em tom de protesto do Sábado de Aleluia que tem o personagem bíblico - acusado de trair Jesus - como figura central das manifestações.

Angerami foi o “Judas” malhado na Vila Santa Luzia e no Jardim Rosa Branca. No primeiro, a iniciativa partiu da dona de casa Helena Ester Nascimento Oliveira. “Ele foi o escolhido porque estamos bronqueados, principalmente diante da situação da saúde e do asfalto do município. Além disso, ele não gosta muito de aparecer para dar satisfação e fica mandando assessores no lugar, e não foi isso o que ele prometeu”, criticou a dona de casa, que em anos anteriores já havia escolhido o ex-prefeito Nilson Costa e o deputado Pedro Tobias para malhar.

Com a ajuda de vizinhos, Oliveira confeccionou, em pouco mais de 1h, um boneco trajando camisa, calça, meias e boné e com enchimento de panos velhos e jornal. Detalhista, não perdeu a chance de personificar o rosto de Angerami ao colocar um óculos e desenhar uma barba. Pendurado no portão de sua casa, na quadra 4 da rua Augusto Ferreira, com uma placa onde podia se ler os dizeres “Judas traiu Jesus. Tuga traiu Bauru”, o boneco foi malhado sem dó nem piedade pelas crianças que aguardavam ansiosas pelo momento.

Enquanto batiam no boneco, o encarregado de produção Wilson Júnior gritou para as crianças. “Só não quebrem o óculos para que o Tuga possa enxergar os buracos de Bauru”, bradou ele, provocando risos da “platéia” que acompanhava a malhação. E, após poucos minutos, o que restou do boneco foi somente papel picado e panos rasgados.

Já no Jardim Rosa Branca, a idéia do “Judas” Angerami nasceu da bronca da dona de casa Geisi Maciel com a situação da saúde municipal. “Dia desses levei minha filha menor no Pronto Socorro e fiquei esperando 5h para ser atendida, o que só ocorreu depois que a Polícia chegou no local. É uma vergonha”, protestou. Outro morador das imediações, Levi Sabino de Faria, completou a crítica. “Ele merece ser o Judas por causa da quantidade de buracos e do péssimo atendimento de saúde oferecido. Estou há 39 anos em Bauru e acho ele um péssimo prefeito.”

Para fazer o “Judas” Maciel e os vizinhos se reuniram e cada um doou um pouco do material necessário. Com isso, foi possível confeccionar um boneco com camisa, calça e tênis recheado com jornal, que foi impiedosamente castigado pela “ira” dos pedaços de madeira empunhados pelas crianças da vizinhança. Ao final da malhação, o boneco ainda foi queimado.

Mensalão

O escândalo do “mensalão” e os deputados mensaleiros também foram alvos das brincadeiras da malhação do Judas em Bauru. No Parque Jaraguá, o pedreiro Jario Marques de Souza organizou a festa, que já realiza há nove anos consecutivos na cidade tendo quase sempre os políticos como vítimas. “Já fiz Judas para homenagear diversos políticos e fatos, como os buracos de Bauru e os 10 milhões de empregos prometidos pelo presidente Lula. Eles merecem, pois a maioria é falsa e o partido que a gente depositou nossas esperanças causou o mensalão e a pizza com a absolvição dos mensaleiros. Dizem que a esperança é a última que morre, mas acho que, no nosso caso, acho que já morreu”, enfatizou Souza.

Aproveitando seus conhecimentos e experiências carnavalescas - Souza é o atual “Rei Momo” de Bauru -, o pedreiro, com a ajuda dos vizinhos, criou o “Dr. Mensalão” para ser malhado. Trajando calça, camisa, gravata, terno e sapato, o boneco tinha dinheiro saindo dos bolsos e da cueca - em alusão ao episódio do dinheiro encontrado na cueca de um assessor do irmão do ex-presidente do PT, José Genoíno - e segurava uma maleta verde onde estavam escritas as frases “Que vergonha. PT nunca mais” e “Eleitor, cuidado com seu voto”. E acrescentou:

“A maleta é verde porque é a cor das verdinhas - os dólares - que os políticos costumam correr atrás. A cabeça dele foi feita com meia-calça feminina, o paletó e a camisa ganhei de um brechó e a gravata e o sapato de um amigo evangélico. Depois foi só encher com capim, isopor ralado e pó de serra.”

O boneco foi pendurado em poste e, para compor o cenário, Souza ainda escreveu, em duas faixas de isopor, as frases “Eu sou o Dr. Mensalão” e “Clemente, esgoto 100% não dá”, em protesto contra a possibilidade de aumentar a tarifa de esgoto de 60% para 100% para financiar um fundo para tratamento do esgoto bauruense. “Se o Clemente não tomar cuidado, o ano que vem ele poderá ser o Judas”, prometeu o pedreiro.

E, na hora da malhação, o “Dr. Mensalão” sofreu. Primeiro, foi retirado do poste e amarrado, com uma corda, na cintura de Souza, que o arrastou por dentro de um “corredor polonês” formado por crianças do bairro para ser atacado. Depois do “espancamento”, o boneco ainda foi arrastado a um matagal das imediações pelo pedreiro, que despejou gasolina sobre o “Dr. Mensalão” e ateou fogo.

O mensalão também foi o Judas no Jardim Bela Vista. Moradores das imediações da rua Comendador Leite confeccionaram dois bonecos e os sentaram em cadeiras. Um deles permanecia com as pernas cruzadas e o outro segurava uma pizza recheada com dinheiro. Além disso, ambos “saboreavam” um conhaque colocado em uma mesinha em frente aos mensaleiros.