“Na Grécia Antiga havia um inviolável código de Paz enviado por Zeus, do Olimpo: a “Lei” da hospitalidade.”
No polêmico mundo de hoje, ressoa-nos ainda o eco grego. Profundos conhecedores dos meandros que permeiam as delicadas teias que tecem a guerra e a paz entre os homens, temos em poetas exponenciais tais como Homero e Hesíodo o registro de como ela, a guerra, a maldita “Polemós”, se origina. E o palco desses conflitos é o Lar.
Na Grécia Antiga havia um inviolável Código de Paz enviado por Zeus, do Olimpo: a “Lei” da hospitalidade. Ksenia: Nem mesmo os deuses poderiam infringi-la. Trata-se da obrigação de receber bem todo e qualquer estrangeiro, trata-se de prestar cuidados, auxilio, hospitalidade, derivando daí a palavra “hospital”.
Qualquer pessoa, viajante, de passagem, bastava bater à porta, “toc-toc”, da forma mais prosáica do mundo e seria recebido diretamente pelo dono da casa. Este, abstendo-se de qualquer inquérito prévio para que não configurasse interesse mercantil, imediatamente acionava uma serviçal, uma escrava que, com a bacia d’água, sabão e panos limpos, oferecia-lhes ao estrangeiro para higiene e conforto inicial. O visitante lavava o rosto, as mãos e era imediatamente conduzido a seus aposentos. Lá, encontrava acomodações e roupas limpas. Seu cavalo e o de seus parceiros, se houvessem, eram também tratados. O dono da casa instruía a todos sobre a cordialidade para com o hóspede e durante cerca de dois a três dias era um banquete só. Disponibilizava-se o que havia de melhor na casa: pães, azeites, vinhos, faisões, cordeiros e frutas raras.
Ao fim desses dois ou três dias de festejos e fartura, finalmente o hóspede sentia-se compelido a, diante de seu anfitrião, sua mulher, filhos e demais parentes, falar sobre sua origem, seus pais, sua terra e principalmente, o propósito de sua visita. Este, podia ser uma simples viagem, algum interesse comercial, um comunicado importante, um chamado, um circunstancial e delicado momento de necessidade pecuniária... Não havendo relato e, portanto, ressonância de uma hospitalidade anterior, de qualquer modo, estava semeada a Paz. O anfitrião tinha como certo o digno recebimento de algum dos seus em terras estrangeiras. Nessas ocasiões, muitas vezes, ocorria a rememoração de que algum ancestral, parente, amigo ou conhecido do anfitrião havia recebido hospitalidade por parte dos pais, parentes ou amigos do visitante e, nesses instantes, a camaradagem era total. Celebrava-se e brindava-se ao “pagamento” da Paz com a Paz. O hóspede, agradecido, despedia-se e prosseguia em seu caminho. O anfitrião sentia-se enobrecido por ter semeado ou simplesmente selado a paz, perpetuando-a através de seu honroso gesto.
Nem sempre imperava a Paz nesse acordo tácito. Não eram raras as vezes em que o viajante encantava-se com a esposa ou com uma das filhas de seu anfitrião. Conta-se até ter havido rainhas, que sentindo o ultraje de terem sido preteridas por algum hóspede por quem tenham se sentido atraídas, deturparam propositalmente as ações relatando ao marido as inexistentes investidas por parte do hóspede. Estava declarada a guerra: “Polemós”. Daí o termo polêmica.
Ser acolhido, bem recebido, e retribuir toda distinção e apreço com uma aviltante traição era inadimissível! Violar uma regra sagrada era incitar a guerra!
Narra Homero, na Ilíada, que Páris, irmão de Heitor, filhos de Príamo e Hécuba, Reis de Tróia, violou esta Lei. Ao seqüestrar Helena, mulher de Menelau (mesmo tendo ido por sua livre e espontânea vontade), selou o trágico fim de uma dinastia. Todos os gregos se aliaram a Menelau, irmão de Agamennon, Rei de Esparta, para a guerra. Tróia foi destruída. Sucumbiu por ter incorrido no erro de ter acobertado o mais famoso adultério da história do mundo antigo. Tróia atraiu POLEMÓS!
E você, como tem recebido a quem bate à sua porta? Receba bem quem quer que seja, pois essa é a suprema Lei da Paz, Lei de Zeus (basta trocar o “Z” pelo “D”, se for Cristão!)
A autora, Luciene Félix, é graduada em Comunicação Social, é responsável pela coluna “Filosofia” no jornal jurídico “Carta Forense” e professora de Mitologia greco-romana na Escola de Pós-graduação em Direito Constitucional (ESDC), em São Paulo