08 de julho de 2026
Regional

Fiscal muda versão e acusa prefeito

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Piratininga - O fiscal de obras da Prefeitura de Piratininga Antônio Álvares Rodrigues prestou ontem novo depoimento na Delegacia de Polícia sobre o pagamento antecipado do carregamento de madeira. Ao contrário do que fez na primeira vez em que esteve conversando com o delegado Paulo Calil, ontem Rodrigues afirmou categoricamente que o prefeito afastado Mauro Martinão (PSDB) sabia que a madeira foi paga antes de ser entregue.

No entanto, outras pessoas, que também foram ouvidas ontem pelo delegado, não confirmaram a versão do fiscal de obras. Também estiveram na delegacia o tesoureiro Sérgio Fortunato e o responsável pelos empenhos da prefeitura, Reginaldo Salvador.

Em seu primeiro depoimento, Rodrigues isentou o prefeito de qualquer participação no pagamento antecipado pelos 500 metros lineares de madeira.

Depois disso, foi criado um processo administrativo dentro da prefeitura para apurar as responsabilidades pelo pagamento da madeira e Rodrigues acabou afastado do cargo por determinação do prefeito. Por vingança ou com o objetivo de falar o que sabia, o fiscal de obras mudou a versão inicial e ontem afirmou que Martinão tinha ciência de que a prefeitura pagou pela madeira antes de recebê-la.

Segundo o delegado, até o momento não foi apresentada nenhuma prova documental da participação do prefeito no caso. Se isso ocorrer ou se outros funcionários passarem a envolver o prefeito, o inquérito será remetido à Delegacia Seccional de Bauru, que é a esfera responsável por investigar ocupantes de cargos públicos.

Enquanto isso, o carregamento de madeira continua retido no pátio da delegacia de Piratininga. O material foi recolhido na terça-feira da semana passada, quando os vereadores descobriram que a madeira que estava sendo entregue não era a mesma que havia sido comprada pela prefeitura.

O fornecedor da mercadoria, Gilberto Ventura, reconheceu que a madeira entregue não é a mesma discriminada na nota. Tratava-se de um carregamento de angelim, mas a prefeitura havia pedido vigotas de peroba. Segundo Ventura, ambas são madeira de lei, têm o mesmo valor comercial e servem para as mesmas coisas.

Entretanto, uma análise mais cuidadosa feita por madeireiros mostrou que a madeira apreendida não é angelim, como afirma o fornecedor, mas cambará. Além de mais barato, esse tipo de madeira é menos resistente do que peroba ou angelim. Para comprovar essa informação, o delegado Calil solicitou exame de um perito do Instituto de Criminalística. O laudo deve sair em breve.

O carregamento foi entregue um dia depois que os vereadores descobriram que a prefeitura pagou pela mercadoria e não havia recebido. Ventura disse no dia que tentou entregar a mercadoria dentro do prazo, mas a garagem municipal estava fechada. Em seguida, ele teve de viajar.

Diante de tudo isso, o presidente do Clube da Terceira Idade “União de Piratininga”, José Vicente Ortolani, protocolou na Câmara Municipal pedido de instauração de Comissão Processante (CP) para apurar a participação do prefeito no pagamento da madeira. O pedido foi votado e aprovado na noite de anteontem por sete votos contra dois e resultou no afastamento do prefeito.

____________________

Repercussão

A decisão da Câmara de criar a Comissão Processante (CP) e afastar o prefeito Mauro Martinão foi o assunto do dia ontem em Piratininga. Como já era esperado, as opiniões são as mais diversas.

A reportagem do JC esteve na cidade e ouviu alguns moradores. Apesar dos diferentes pontos de vistas, deu para perceber uma tendência em favor do prefeito. A falta de prova contra Martinão foi um dos itens apontados por Atenilton da Silva Miranda para reprovar a decisão da Câmara. “Para julgar uma pessoa tem que ter prova. Achei uma falta de respeito (com o prefeito)”, disse o morador.

Josiane Maria Dias Barbosa também não concordou com o afastamento de Martinão. “Achei errado”, afirmou. “Pelo que eu sei, a culpa maior foi dos funcionários da prefeitura que assinaram a nota sem receber a mercadoria”, disse. Na opinião ela, o prefeito deverá retomar o cargo. “Ele volta”, aposta.

Avaliação semelhante é feita pela moradora Samanta Segantin. Ela disse acreditar que o prefeito tenha culpa no episódio, mas os maiores responsáveis teriam sido mesmo os funcionários encarregados de fiscalizar a entrega dos produtos adquiridos pela prefeitura. O cabeleireiro Helder Geraldo Teixeira foi mais enfático. Para ele, a criação da CP e o afastamento do prefeito não passa de “perseguição política”. “O cara (prefeito) não fez nada de errado”, acredita.

Por outro lado, tem gente que aprova a atitude dos vereadores. “Está correto. Toda denúncia tem de ser apurada”, afirmou um morador que se identificou apenas como Francisco. Segundo ele, “onde tem fumaça tem fogo”. “Além do mais, até os vereadores que apoiam o prefeito votaram a favor da CP”, destaca o morador.