Agnelo é o meu dentista. Alegre, sorridente e correto profissional. Sento sem medo em sua cadeira.
Usa e abusa de minha sofrida boca, e jamais senti dor. Ontem fui confiante, sentei alegre e sorridente, entretanto, notei que o tira-dentes estava diferente. Estava com o semblante carregado, coisa difícil de se ver!
De cara, sem prévio aviso já foi me anestesiando. Mandou abrir a boca e veio com o suplicio do motorzinho. Doía e muito! Esperneava, abanava as mãos e de nada adiantava. Agnelo estava insensível e implacável.
Parou um pouco, reclamei: - Cara, está doendo barbaridade!
- Não diga!, respondeu secamente. E voltou ao suplicio. Creio que estava parecendo uma galinha com o pescoço destroncado, de tanto sambar naquela cadeira, atrapalhando o serviço do diligente profissional da botica. Este, sem mais e nem menos, usou o joelho para tentar me segurar. Pressionou o joelho em minha barriga, para ver se quieto eu permanecia.
Piorou.... e muito! Além da dor, deu vontade de urinar!
Com tudo isto, ainda lembrei das sutilezas do Analista de Bagé. Não sei o porque, mas lembrei. Depois de uma meia hora de esperneio, começo a ouvir a voz triste de Agnelo.
- Pô.... minha sogra veio pro aniversário de minha mulher, já completou quinze dias e não vai embora!
- Humhum!, consegui balbuciar com a boca sangrando.
- Bem que desconfiei que ia ficar tempo! Fui tirar a mala do carro e estava pesada barbaridade!
- Humhum!
- Sogra na casa da gente é uma desgraça!
- Humhum!
Consegui lembrar do Toni Apolonio, que quando vê visita chegando em sua casa com malas de tamanho acima do normal, de pronto diz que está saindo de viagem ou entrega disfarçadamente o cartão do hotel, elogiando a qualidade dos serviços prestados pelo estabelecimento.
Ainda bem que Toni não é dentista! Depois de uma hora, que pareceram muitas, de sofrimento naquela cadeira, o cara pega a agenda:
- Você pode voltar amanhã às 14,00 horas?
- Negativo! Só volto quando tiver certeza de que sua sogra foi embora! Moral da história:
“ Antes de abrir a boca para seu dentista, verifique como está o seu humor.”
Contada por Antonio Pedroso Jr.