08 de julho de 2026
Bairros

Reflexos da urbanização

Rafael Tadashi
| Tempo de leitura: 4 min

A cada quilômetro quadrado 509 pessoas espremem-se em Bauru. O dado refere-se à densidade populacional levantada pela Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade) em 2005 e tem crescido ano após ano. No início deste século, o índice era de 476,11 habitantes por quilômetro quadrado e, em 1980, de 275,49.

Esse crescimento é resultante da urbanização desenfreada vivida pelo município, que já tem 10% de sua área total urbanizada, contra 0,25% do índice nacional. De acordo com o serviço Embrapa Monitoramento por Satélite, realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), essa ocupação atinge 0,25% dos 8.531.245 km2 do solo nacional.

Segundo dados da Secretaria de Planejamento (Seplan), a área total do município é de 673,488 km2. Deste total, 137,545 km2 são áreas urbanas e 68,97 km2 são áreas urbanizadas, ou seja, 10% da área total de Bauru está populacionalmente ocupada.

Bauru foi instalada como cidade no ano de 1896. À época, grandes fazendas de café ocupavam as terras da Cidade Sem Limites, mas o avanço econômico e populacional se deu mesmo em 1905, com a chegada da estrada de ferro da Noroeste do Brasil. Coração do Estado de São Paulo, a cidade se desenvolveu rapidamente e tem hoje mais de 343 mil habitantes.

A partir dos dados apresentados é possível notar que mais da metade das áreas urbanas não têm ocupação populacional, ou seja, estão ociosas. Vazios urbanos e empreendimentos imobiliários que jamais saíram do papel, mas têm asfalto e iluminação pública, dividem espaço com novos condomínios residenciais e núcleos de habitação popular.

“Bauru pode dobrar o número de habitantes que tem hoje apenas no espaço urbano que já existe. O maior responsável por estes vazios urbanos e pelos desmatamentos são os loteadores. Ainda perdura a sensação de que Bauru tem que crescer. Na verdade Bauru precisa se desenvolver de maneira sustentável, com planejamento”, afirma o secretário do meio ambiente, Carlos Alexandre Barbieri.

O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito corrobora a opinião de Barbieri. “Andando pelo município é possível notar quarteirões vazios que dispõem de iluminação pública. Ou seja, iluminando mato e terrenos baldios enquanto outros bairros mais afastados não contam com esta infra-estrutura. Bauru cresceu sem acompanhamento, sem direcionamento do poder público”, argumenta.

Brito comenta que o primeiro plano diretor elaborado no município, em 1968, previa a indução de crescimento de determinadas regiões. No entanto, com um crescimento desordenado ou sem direcionamento por parte do poder público, Bauru vê hoje seu crescimento limitado pelas diversas rodovias que circundam a cidade.

“As regiões norte, noroeste e sul praticamente não têm mais para onde crescer por conta das rodovias. Portanto, outras regiões devem crescer. Acredito que novos loteamentos devem surgir na região da divisa Bauru/Agudos. No entanto, é preciso estabelecer políticas para um crescimento com desenvolvimento”, diz.

Para crescer com desenvolvimento e direcionamento, tanto Brito quanto Barbieri acreditam que o atual plano diretor, que está entrando em sua etapa final, exercerá papel fundamental. “O plano diretor, além de contemplar diversos anseios da população que foi ouvida durante as reuniões realizadas, vai estabelecer metas a longo prazo, para um desenvolvimento justo e com qualidade. É preciso sanar as necessidades imediatas, mas é muito importante pensar a longo prazo”, ressalta Barbieri.

O plano diretor, no entanto, não reverterá os efeitos da urbanização sobre a fauna e a flora bauruense. A instalação do município, iniciada em 1896, já resultou na extinção de pelo menos dez espécies animais e na diminuição da área do cerrado e da mata atlântica.

Apesar desse triste cenário, muitos moradores encontram tempo e disposição para curtir a cidade sob outras perspectivas. Entre os personagens dessa urbanidade está Antônio Cícero de Oliveira, morador da Vila Independência e defensor do meio ambiente local. “Bauru já foi muito mais verde. O avanço populacional e a urbanização destruíram e continuam destruindo o meio ambiente. É preciso lutar contra isto”, defende.

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Primórdios da cidade

A primeira rua de Bauru foi a Araújo Leite. Por volta de 1888, esta rua era uma estrada de terra utilizada por trabalhadores rurais e coronéis para chegar às fazendas Corumbá, São Luiz, Val de Palmas e outras, de acordo com o historiador Gabriel Ruiz Pelegrina. Depois vieram a rua Batista de Carvalho, a avenida Rodrigues Alves e a cidade foi crescendo.

A expansão populacional se deu principalmente nas direções oeste e sul. “Muitos coronéis compravam grandes fazendas e loteavam. Bairros como Bela Vista, Vila Falcão, Vila Seabra e Vila Antártica foram fazendas loteadas”, conta.

Pelegrina explica que as primeiras ruas e bairros surgiram todos no entorno das linhas férreas. O primeiro prédio público foi construído em 1908, em frente à praça Rui Barbosa, e abrigava a Câmara Municipal de Bauru. “Neste período as pessoas desciam na Noroeste e diziam: ‘vamos subir o morro para a Rui Barbosa’. Era tudo terra e mato”, diz.