Sonho de consumo da maioria dos adolescentes – e muitos adultos -, o Ipod reproduz som de alta qualidade que pode ser ouvido no ônibus, na fila do banco e onde mais o usuário quiser. Mas um alerta: a exposição prolongada a ruídos produzidos pelos aparelhinhos da moda, incluindo os de MP3 e as casas noturnas, em níveis acima dos recomendados pelos órgãos de saúde, representam risco à audição.
As pessoas mais sensíveis podem comprometer a audição com uma única exposição, alerta o físico e audiologista Deepak Prasher, integrante do Comitê Internacional Europeu de Audiologia e consultor da Organização Mundial de Saúde. “Nas discotecas e com aparelhos Ipod e MP3, eles se expõem a níveis que variam de 90 a 110 decibéis”, comenta. Segundo dados da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico, o ouvido humano suporta até 90 decibéis.
A partir daí, já existe a possibilidade de uma pessoa apresentar lesão, muitas vezes irreversível, levando à perda auditiva. Prasher esteve em Bauru recentemente para participar do Simpósio Internacional de Audiologia na Universidade do Sagrado Coração (USC) e ressaltou que muitas pessoas expõem-se de maneira inadequada por desconhecer os riscos dos ruídos. “O primeiro efeito na saúde é de incômodo, mas o ruído pode perturbar o sono e o desempenho escolar”, ressalta.
Prasher frisa que o ruído de um avião, por exemplo, pode comprometer o desempenho do professor e do aluno na sala de aula. “Escolas próximas de locais barulhentos são prejudicadas. O barulho pode afetar o professor do ponto de vista ocupacional e o aluno, no processo de aprendizado”, comenta.
É comum esses jovens, diz Prasher, apresentarem queixas de sensação de ouvido tampado e zumbido. “São sinais de alterações temporárias. Ela se torna crônica quando a exposição ocorre por longo prazo”, afirma. A sensação de ouvido tampado pode exigir mais potência do som. “O grande problema é que as vezes elevam demais o som numa discoteca exatamente por causa da sensação de ouvido tampado de seus freqüentadores, que começam a achar que o som está fraco”, comenta.
Ele ressalta que há pessoas mais sensíveis e menos sensíveis aos ruídos. “Há pessoas que saem da situação de barulho e dois dias depois não têm mais a sensação de ouvido tampado. Outras permanecem com as queixas”, comenta.
Os efeitos dos ruídos na audição se apresentam de três formas: temporários, permanentes e trauma acústico. O efeito temporário ocorre quando a pessoa vai a uma casa noturna e sai com sensação de ouvido tampado e zumbido. Se for feita uma medição na audição antes e depois, pode se perceber a diferença nos resultados. Depois de 14 horas, essa audição volta ao normal.
A pessoa que tem sempre essa alteração temporária pode ser mais suscetível e se, no futuro, sofrer uma exposição prolongada, normalmente depois de três anos, pode desenvolver a doença crônica chamada de perda auditiva induzida por ruído, explica Prasher.
O segundo efeito é perda auditiva permanente e o último, o trauma acústico, quase um acidente. “Ocorre quando a pessoa está num jogo de futebol e uma bomba explode muito próximo de seu ouvido. Aquilo chega a ocasionar uma dor no ouvido seguida de sensação de ouvido tampado, zumbido”, compara.
Nos Estados Unidos, segundo ele, 30 milhões de pessoas estão expostas ao ruído ocupacional. “Na Europa, onde há um controle maior, normalmente os níveis em torno de 55 e 60 decibéis, tem muitas pessoas que se expõem a níveis maiores em atividades de lazer com ruído”, diz.