A velha e boa escrivaninha que acompanhou os estudos de muitas gerações e esteve presente em escritórios é mobília do passado. Dificilmente um consumidor irá encontrar uma peça no mercado. Nem mesmo em lojas de móveis usados. Ela foi extinta pelo avanço tecnológico. Em seu lugar estão as mesas de computador.
Esse exemplo reflete o descompasso entre o tempo da tecnologia e o tempo afetivo. Isso porque, embora as novidades tecnológicas sejam incorporadas com uma certa rapidez ao cotidiano das pessoas, sempre há alguém procurando um modelo antigo de algum produto, uma velha e boa escrivaninha, por exemplo. Afinal, além de sua funcionalidade, faz parte de muitas histórias de vida. Mas não há mais espaço para isso nas lojas. Quem quiser um destes produtos vai ter que bater muita perna e, na maioria das vezes, ficar na saudade.
Não é apenas a escrivaninha que virou raridade em decorrência do desenvolvimento tecnológico. Algumas visitas a lojas de móveis usados e loja de mercadorias novas revelam o desaparecimento de alguns produtos. Uns já estão sumidos há quase uma década, o que não é tanto tempo assim, outros estão desaparecendo.
Entre os objetos que foram extintos há mais tempo estão, além das escrivaninhas, as pranchetas de desenho de engenharia e arquitetura, por exemplo. O proprietário de uma loja de móveis usados, Laércio Graetti, afirma que há uns oito anos havia lista de espera para se conseguir uma prancheta.
“Eu sempre tinha uns cinco, seis telefones para ligar assim que chegasse uma na loja”, conta. “Era coisa de dois dias para serem vendidas.” Com os computadores, elas foram extintas. “Imagino que nenhum engenheiro ou arquiteto faça mais desenhos em pranchetas”, avalia.
As escrivaninhas, Greatti afirma que em duas ou três semanas vendia entre 70 e 80 peças. Estas peças começaram a desaparecer, segundo ele, há uns quatro anos. “Hoje é raro aparecer comprador. São mais empreiteiros e oficinas que ainda querem.”
Entre outros eletrodomésticos que viraram encalhe em sua loja, ao serem substituídos por similares mais modernos, estão geladeiras duplex e os freezers verticais antigos. “Tinham uma excelente saída, mas foram substituídos por aparelhos modernos com sistema de refrigeração que consomem menos energia”, explica Greatti.
Os televisores de caixa de madeira também são encalhe garantido em sua loja. Na era do televisor de plasma, estes aparelhos não têm chance nenhuma de serem vendidos. “Funcionam muito bem, a imagem é ótima, mas o designer é antigo demais, por isso não saem”, diz Greatti.
As estantes de sala são outras espécies praticamente extintas, pelo menos nas lojas de usados. “Hoje eu tenho só uma na loja. As pessoas só procuram por racks. Ninguém mais quer uma estante.”
Desaparecimento
Se as escrivaninhas, pranchetas e televisores de caixa de madeira estão sumidos há alguns anos, outros produtos estão desaparecendo há menos de um ano. Ainda convivemos com alguns exemplares nas lojas de produtos novos, mas em pouco tempo já não estarão mais nas prateleiras. Passarão para as lojas de usados, para depois não serem encontrados em lugar algum.
É o que acontece com as máquinas fotográficas analógicas. De acordo com o gerente de um magazine bauruense, Paulo Seimetz, esses produtos começaram a sofrer uma queda brusca de vendas a partir de junho do ano passado, com os preços mais acessíveis das digitais. Em dezembro, de acordo com Seimetz, ocorreu o boom das digitais. De 150 peças analógicas vendidas por mês, o comércio passou para dez.
Os videocassetes ainda são encontrados nas prateleiras das lojas, mas em quantidade bem reduzida. Segundo Seimetz, para cada 100 DVDs é vendido um videocassete. Mas os DVDs também já estão batendo em retirada.
O vendedor de outro magazine, Ricardo Almeida, afirma que mesmo os DVDs tradicionais já estão perdendo lugar. Hoje, a procura maior é por DVDs com DivX, MP3 e função karaokê. O mesmo acontece com os aparelhos de som que se tornam obsoletos rapidamente.
Os aparelhos 3 em 1 (toca-disco, toca-fitas e rádio) não deixaram nem rastro, foram trocados pelo mini-system e este, por sua vez, também já está empoeirando nas estantes das lojas. Depois dele surgiu o CD com MP3 e agora a novidade mais procurada é o aparelho de som com função karaokê, MP3 e DVD. E já está no mercado o aparelho com uma terceira caixa de som, o sub-woolfer, que dá mais qualidade e mais potencialidade ao som.
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Resistência
As máquinas de costura sempre foram vendidas nas lojas de usados. Podem ter 70, 80 anos que todas têm saída, segundo Laércio Greatti, proprietário de um comércio de móveis e eletros usados. “A maioria dos consumidores procura as antigas nos móveis usados porque as modernas são mais complicadas para usar”, explica.
Já nas lojas de produtos novos, o comportamento é outro. Segundo o gerente Paulo Seimetz, as máquinas de costura raramente são vendidas. Se antes vendia-se 20 peças por mês, hoje não é raro fechar o mês sem vender uma única peça. Na avaliação dele, o que ocorre é que hoje a saída é para profissionais. Não se vende mais para a dona de casa, este público consumidor de máquinas de costura diminui muito, segundo Seimetz.