Buenos Aires - Como o Brasil, o governo argentino se mostrou “surpreso” com o anúncio boliviano sobre a nacionalização dos hidrocarbonetos do país. Mas a Casa Rosada escolheu ser cautelosa e não deu declarações públicas sobre o tema, já que negocia com Evo Morales o aumento da quantidade de gás enviada à Argentina.
O principal ministro do governo Kirchner, Julio de Vido (Planejamento), esteve em La Paz na semana passada para negociar o acordo de abastecimento, que vence no final deste ano - um documento de entendimento foi assinado criando uma comissão bilateral para discutir o tema. Hoje, a Bolívia envia à Argentina diariamente até 5 milhões de metros cúbicos de gás, mas o acordo vigente entre os países permite chegar a um teto de até 7,7 milhões de m3/dia.
O problema para o país vizinho é que a capacidade dos gasodutos hoje instalados já está esgotada e o anúncio de Morales congelará por pelo menos seis meses investimentos privados para sua expansão, avaliaram pessoas ligadas ao governo e empresários na imprensa argentina. Na prática, a eleição de Morales já postergou investimentos.
A construção de gasoduto no noroeste argentino, para trazer mais gás da Bolívia, que contava com participação da Repsol-YPF, foi anunciada no ano passado, mas ainda não saiu do papel.
A quantidade de gás importada da Bolívia corresponde a cerca de 3% do consumo diário argentino - ao redor de 140 milhões de metros cúbicos. Mas como a capacidade energética do país está no limite, qualquer interrupção teria impacto imediato - daí também a importância de um tratado que amplie o abastecimento.
Ontem, o vice-presidente boliviano, Alvaro Garcia Linera, afastou a possibilidade de cortes na venda de gás, tanto ao Brasil como a Argentina. “Com essa decreto se garante a entrega total, absoluta e inegociável de nossos compromissos de gás”, disse Linera em uma entrevista de rádio.