10 de julho de 2026
Nacional

Lula não quer endurecer com a Bolívia mas diz que vizinho não pode ‘impor soberania’

Folhapress
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Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva descartou ontem radicalizar a posição do Brasil em relação à Bolívia, mas afirmou que o país vizinho não pode “impor a sua soberania” sobre o Brasil. “O fato de os bolivianos terem direitos não significa negar o direito do Brasil”, afirmou ele em discurso durante conferência da Organização Internacional do Trabalho (OIT) em Brasília. “O que não pode é uma nação tentar impor a sua soberania sobre as outras sem levar em conta que o resultado final da democracia é o equilíbrio entre as partes.”

Tentando manter o tom diplomático adotado desde anteontem pelo governo federal, sem uma reação forte contra a decisão da Bolívia de decretar a nacionalização do petróleo e gás, Lula admitiu que o “povo sofrido” da Bolívia tem o direito de reivindicar mais poder sobre “a maior riqueza” do país vizinho. Ele disse, entretanto, que vai resolver as divergências com a Bolívia “numa mesa de negociação”. “Não vamos descobrir uma arma qualquer na Bolívia para justificar uma briga com o país”, disse Lula, referindo-se aos argumentos utilizados pelos Estados Unidos para invadir o Iraque.

“Aprendi a negociar muito antes de ser político. As divergências serão tiradas em torno de uma mesa, conversando”, disse. Os presidentes do Brasil e da Bolívia vão se reunir hoje com os presidentes da Argentina, Néstor Kirchner, e da Venezuela, Hugo Chávez, para discutir as conseqüências da decisão boliviana no projeto de integração energética da região.

O presidente fez questão de negar as notícias publicadas desde a decisão de Morales de que haveria uma crise envolvendo os dois países. “Não tem crise entre o Brasil e a Bolívia. Não existirá crise, existirá um ajuste necessário.” Segundo Lula, as divergências entre os países são próprias da democracia. “O que a gente não pode é maximizar isso e dar uma dimensão que não tem”, afirmou Lula, ao comentar que o Brasil tem interesses na Bolívia e esta também tem interesses no Brasil.

Segundo o presidente Lula, as disputas políticas na América Latina são características de um “continente em formação” do ponto de vista político e democrático. Lula disse que “as divergências que aparecem não são para assustar ninguém. São próprias das nações, do estágio de sua relação política externa e de sua relação política interna”. O presidente lembrou que as relações entre o Brasil e a Argentina, por exemplo, não eram boas no inicio de seu governo. “Era uma luta preconceituosa de brasileiros com argentinos”.

Segundo Lula, essa relação mudou ao longo dos últimos anos justamente porque não prevaleceu o interesse de um empresário ou de um diplomata sobre o outro, mas porque a relação dos dois países foi tratada como uma política de Estado. “Na política de Estado, precisamos estar bem com todos os países do nosso continente, e vamos estar”, afirmou Lula.

Segundo ele, o mérito de seu governo teria sido buscar boas relações com os países do continente e também com Europa, China, Índia e EUA “sem tem que romper com a amizade velha para fazer uma nova”. “É com esse jogo de cintura que iremos consolidar o processo democrático na América do Sul: sem mentiras, sem mágicas, mas enfrentando os problemas como se fôssemos companheiros”, disse. Morales

O presidente da Bolívia, Evo Morales, afirmou que as empresas petrolíferas instaladas no país “vão lucrar menos” após sua decisão de decretar a nacionalização do gás e do petróleo. “Nós não estamos expulsando nenhuma companhia, mas elas vão lucrar menos que antes”, afirmou o presidente em entrevista à rede venezuelana de televisão Telesur. Ele também confirmou que vai participar hoje de reunião com os presidente Lula, Néstor Kirchner (Argentina) e Hugo Chávez (Venezuela) em Foz do Iguaçu, onde deverão ser negociados novos preços para o gás boliviano. Morales voltou a dizer que a Bolívia precisa dos investidores estrangeiros como “sócios, e não proprietários”.

No entanto, avançou ainda mais em relação a declarações que já dera até no Brasil: “Nós esperamos que eles se mantenham sócios e, se eles não respeitarem essas leis, nós os faremos respeitar com força política.” A Petrobras, entretanto, deve acionar um tribunal de arbitragem internacional contra a decisão da Bolívia porque investiu mais de US$ 1 bilhão no país vizinho desde 1996 e, de acordo com os decretos de Morales, perderá o controle sobre seus ativos no país.

O governo boliviano, entretanto, também ameaça nacionalizar empresas de minas, florestas e outros setores da economia. O vice-presidente Álvaro Garcia Linera afirmou que as empresas de mineração podem ter de pagar impostos maiores e royalties para continuar a explorar minérios no país vizinho.