08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Sobre greves e greves


| Tempo de leitura: 4 min

A última decisão de uma categoria de trabalhadores, quando não há mais alternativas, quando já se lançou mão de todos os argumentos, é a greve, que é garantida legitimamente pela Constituição Federal, nossa Lei maior. Quando mesmo assim, o “patrão” se nega a dialogar, quando na negociação, se é que se pode dar este nome a reuniões onde a “tropa de choque” bate sempre na mesma tecla, como se a fita estivesse emperrada, mesmo podendo mudar aquele quadro e não o faz, sendo sempre o sindicato, em nome da categoria, quem apresenta novas propostas e cede e abre mão de direitos legítimos, aí fica claro quem realmente aposta no conflito e no confronto.

Quem afirma que o Pronto-Socorro, por exemplo, virou um caos devido à greve, realmente nunca precisou dele. E, se precisou e viu os absurdos que há muito acontecem por lá, as péssimas condições de trabalho a que são submetidos os servidores daquele local, que acabam sendo até mesmo agredidos pela população desesperada e não gritou e nem fez escândalo, foi conivente com esta situação, várias vezes denunciada pelo sindicato.

Esta greve não foi apenas por melhores salários, mas também por condições dignas de trabalho e atendimento decente à população. Mas parece que tem gente querendo tapar o sol com a peneira, como se a cidade estivesse às mil maravilhas e apenas a greve tornou tudo, educação, saúde, obras, transporte, etc, um sistema caótico.

Não conseguimos os índices salariais reivindicados, mas conseguimos chamar a atenção para problemas gravíssimos que se arrastavam há tempos. Conseguimos que o prefeito se comprometesse a reavaliar a situação dos pronto-socorros; conseguimos que um economista contratado por nós tenha acesso às finanças da prefeitura; conseguimos que a campanha salarial seja reaberta em agosto deste ano e não só no ano que vem; conseguimos mostrar a força de uma categoria que continua mobilizada e em agosto estará novamente a postos; conseguimos o respeito de muita gente, que até então não conhecia nosso trabalho em defesa dos trabalhadores; conseguimos que nenhum servidor tivesse seus dias cortados; e, mais, ainda conseguimos mostrar a verdadeira face deste governo, que mostrou sua truculência, sua arbitrariedade e seu autoritarismo ao impedir que servidores, que são antes de tudo cidadãos que pagam seus impostos, entrassem em órgãos públicos, cerceando seu direito de ir e vir. Mostrou sua face também quando se escudou atrás de várias viaturas de polícia e muitos policiais armados, como se fôssemos marginais. Mostrou sua face quando alardeou que a greve havia terminado antes que uma assembléia legítima votasse a decisão, ocasionando com isso um conflito, onde vários diretores foram agredidos com violência e spray de pimenta nos olhos.

Não perdemos nada, antes, ganhamos, pois foi maravilhoso o entrosamento entre aquelas centenas de pessoas que se aglomeravam diariamente na sede do sindicato. Foi linda a demonstração de solidariedade das companheiras que se ofereceram com alegria para fazer o almoço de toda aquela gente diariamente, e o fizeram com capricho e muito carinho. Foi digno de nota a coragem demonstrada por todos naquela situação tensa e difícil. Quando ouvimos de um companheiro coletor que ele nunca havia feito uma refeição tão saborosa, que fez com que ele adormecesse assim que chegou em casa, pois estava se sentindo muito satisfeito, quando assistimos a emoção com que estes mesmos coletores foram recebidos quando chegaram à sede do sindicato pelos outros companheiros em greve, o que demonstra o respeito que temos por esses incansáveis trabalhadores, quando se vê uma pessoa acostumada a situações conflitantes, complicadas e difíceis, calejada em greves e manifestações, chegar às lágrimas devido à postura consciente e de muita coragem dos servidores, como foi o caso de nosso advogado, e quando vemos, por fim, um servidor simples e humilde dizer que se sentiu entendido e se sentiu importante como pessoa ao ser aplaudido nas ruas da cidade por pessoas que assistiam à nossa passeata, podemos concluir com serenidade que tudo valeu a pena. Aliás, como diz o poeta: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

Infelizmente, nossa cidade vem sendo “enterrada” por administrações, no mínimo, incompetentes. Foi o que mostramos em nossa “passeata fúnebre”, que passou silenciosa pela ruas do Centro da cidade, sob os olhares de aprovação dos munícipes.

Quem pensa que fomos derrotados se engana redondamente. Saímos de cabeça erguida e com a sensação que cada vez mais o servidor municipal, que presta serviços a essa querida cidade, está mais consciente de sua importância e de seus direitos e deveres. Em agosto, estaremos de volta, lutando por nossas justas e válidas reivindicações, pois só a luta muda a vida!

Sonia Carvalho - diretora do Sinserm e professora municipal aposentada)