08 de julho de 2026
Nacional

Bruce Willis vive dilemas policiais

Por Sérgio Rizzo | Folhapress
| Tempo de leitura: 2 min

Policiais íntegros que passam por maus bocados porque a corrupção mora na mesa ou no gabinete ao lado alimentam antiga tradição do cinema norte-americano. Em linhas gerais, Jack Mosley (Bruce Willis) enfrenta os mesmos percalços em “16 Quadras”. Não é, porém, o que se possa chamar de “tira” exemplar.

Decadência estampada no rosto, ele não parece encarar com idealismo a atividade. É apenas um emprego. Quanto menos trabalho der, melhor. Sua vida pessoal também não oferece estímulos. Vai mal, o Jack. No fim de um expediente, baixará sobre ele a lei de Murphy: não há nada ruim que não possa ficar ainda pior. Para encerrar a jornada, em plena manhã, o chefe determina que ele conduza um réu, Eddie (o rapper Mos Def), até o tribunal em que vai depor, a 16 quarteirões de distância do distrito policial.

Jack logo percebe que o único perigo aparente da tarefa atinge seus ouvidos - Eddie fala (e reclama) sem parar, como quem adivinha que tem pouco tempo para isso. Touché: não demora muito para que se saiba a respeito do que o réu vai depor e para que Jack tenha noção do tamanho da encrenca em que se meteu.

Daí em diante, o diretor Richard Donner (da série “Máquina Mortífera”) usa as ruas de Nova York como cenário para um filme de ação, com muita testosterona, que gira em torno de um policial exposto, afinal, à circunstância inusitada que poderá levá-lo à redenção. Faz toda a diferença, no reino do “star system” hollywoodiano, que o protagonista não seja interpretado por Harrison Ford, mas por Bruce Willis. Algum grau de desajuste, temperado muitas vezes por cinismo, quase sempre orienta seus personagens. Barba por fazer e olheiras de noites sem dormir expressam visualmente o perfil psicológico de quem, invariavelmente, lutará contra tudo e contra todos.

Como o “star system” não costuma enganar o consumidor, sabe-se muito bem que o produto oferecerá exatamente o que promete. O pacote inclui outra fórmula recorrente no gênero, a convivência forçada entre dois sujeitos de mundos muito distintos, que, por um breve período, precisam se integrar para sobreviver. Mos Def cria - com a fragilidade física, o olhar inquieto e o timing para o humor - eficiente contraponto à “dureza de matar” de Willis.

Erguida a trama e desenhados os personagens, Donner põe fogo no circo. E, como a tenda está armada sobre Nova York, o caos urbano será moldura para tiroteios, perseguições, acertos de contas e “assuntos internos” - da polícia e também da amarrotada consciência de Jack.