09 de julho de 2026
Regional

Expansão da cana gera temor de ciclo de erosão

Ricardo Santana
| Tempo de leitura: 3 min

A ampliação de áreas plantadas com cana-de-açúcar na região de Bauru para atender ao aumento de produção das usinas gera uma desconcertante preocupação nos técnicos de meio ambiente. O agrônomo da Prefeitura de Agudos Luiz Aleixo Cesarotti, 48 anos, faz uma projeção de que, em cinco a dez anos, a região sofra um novo ciclo de erosão com a devolução das terras arrendadas. Ele argumenta que os produtores rurais, na maioria das vezes, recebem a devolução das terras sem capital para investimentos e, portanto, sem recursos para o trabalho de contenção das erosões. Agudos está localizada em área de altíssimo risco para erosões, conforme define o Relatório de Qualidade Ambiental do Estado de São Paulo 2006.

Ainda que pareça contraditório, Cesarotti esclarece que o arrendamento de propriedades para as usinas de cana tem colaborado para recuperar áreas erodidas no município, em que os proprietários não teriam recursos para bancar o investimento.

Na fazenda Gama e Silva, o processo erosivo compromete extensa área onde há decadas foi a calha da nascente do Rio Batalha. “Desde 1996, quando voltei para Agudos, o rio não corre mais aqui”, situa. O agrônomo relata que, inicialmente, a propriedade foi arrendada para o cultivo da cana-de-açúcar. “Sabiam que não servia para cana”, relembra.

Atualmente, os proprietários investem pesado para reverter o processo erosivo. O trabalho vem isolando gradativamente uma parte em que ainda resta uma cratera profunda. Cesarotti explica que se optou pelo plantio de eucalipto para a recuperação da vegetação no restante da propriedade.

Ele explica que o tipo de solo da região de Bauru tem uma composição muito peculiar, com uma camada arenosa na superfície – com 30 a 50 centímetros de profundidade – seguida por uma camada argilosa de maior profundidade e que não favorece o desenvolvimento de raízes, caracterizando o solo como infértil para o cultivo. “Nem adubando resolve”, explica o agrônomo.

Devido a essa peculiariedade do solo, Cesarotti reprova determinadas intervenções para corrigir ou prevenir os processos erosivos. Ele define como equivocada a tradicional curva de nível, como as que foram feitas na Fazenda São Pedro, em Agudos.

Como em toda a região, o agrônomo lembra que há 150 anos foi iniciado um intenso e gradual desmatamento para o plantio de café. Na década de 20, o algodão foi a alternativa encontrada pelos agricultores para superarem a crise cafeeira. Conforme Cesarrotti, o cultivo do algodão levou ao esgotamento do solo e intensificação do processo erosivo na zona rural. Os resultados são os mais desastrosos. O agrônomo cita, por exemplo, a extinção de um curso d’água – intermitente – que se formava apenas na estação das chuvas e que desaparecia na seca. Antes a água alimentava o córrego Taperão, região da nascente do rio Lençóis. Atualmente, vai para o córrego apenas areia. Na São Pedro ainda há sinais do processo erosivo.

Cesarotti entende que a tentativa de correção do solo com as técnicas convencionais é ineficiente para o tipo de solo arenoso. Para o agrônomo, a alternativa é isolar a área e deixar que o tempo se encarregue de reconstituir a vegetação. “É melhor deixar como área de reserva nativa”, sugere.

As atividades agroindustriais destacadas no Relatório de Qualidade Ambiental do Estado de São Paulo 2006 revelam como se dá o uso das áreas das bacias hidrográficas do Tietê-Batalha e Tietê-Jacaré. Entre os municípios que formam a Tietê-Batalha, destacam-se as lavouras de cana-de-açúcar para abastecer as usinas de açúcar e álcool, localizadas principalmente em Matão e Novo Horizonte. A cultura de pastagens – braquiária – ocupa extensas áreas, sendo destinada à pecuária de leite e corte, que abastecem os laticínios, frigoríficos e curtumes, na região de Lins. Na bacia hidrográfica Tietê-Jacaré, a agroindústria é expressiva, com grandes áreas de cultivo de cana-de-açúcar, abastecendo, principalmente, grandes usinas de açúcar e álcool em Barra Bonita, Lençóis Paulista e Macatuba.