08 de julho de 2026
Geral

Traficante virtual é da classe média

Érika Pelegrino
| Tempo de leitura: 3 min

Os traficantes da Internet, segundo o delegado operacional do Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) Wuppslander Ferreira Neto, são pessoas da classe média alta, com curso superior, bom nível cultural. São os mesmos que traficam em festas e boates.

“Essas pessoas não se consideram traficantes. Eles afirmam que são comerciantes”, diz o delegado. No meio em que vivem, a maioria anda de carro importado e tem uma situação financeira privilegiada. A forma que procuram para se destacar entre os outros é vendendo drogas.

“Eles querem ser reconhecidos como sendo ‘o cara’, que no jargão deles é aquele que vende a droga nos dancings”, afirma o delegado. “Eles dizem que estão apenas trazendo alegria para a rapaziada, e com isso ganham cada vez mais amigos.”

A Internet torna-se um meio através do qual “o cara” divulga a “balada” na qual estará. Nesta onda, há também os “irmãos do cara”, segundo Ferreira Neto. “São aqueles que ajudam ‘o cara’ a vender a droga e, em troca, ficam com uma quantia para seu consumo.”

As drogas traficadas na rede também são específicas. O delegado operacional do Denarc afirma que são vendidas apenas as drogas sintéticas, como LSD e ecstasy. “São as drogas limpas, vindas dos Estados Unidos e principalmente da Europa. Chegam prontas para o consumo”, explica. Anabolizantes, receitas médicas e remédios para emagrecer proibidos no Brasil, como o Lipostabil, também são vendidos na rede, especialmente no Orkut.

De acordo com o delegado, o público dos traficantes da Internet são pessoas de 18 a 30 anos de idade, de classe média alta. “A classe média baixa tem acesso ao computador na escola, no trabalho, não está de madrugada nos cyber cafés, onde o acesso aos sites de venda de drogas ocorre com mais freqüência, muitas vezes por incentivo de outros usuários”, explica.

A isca para atrair o consumidor, segundo Ferreira Neto, normalmente é a curiosidade dos jovens internautas. “Um fala para o outro: ‘entra em tal site, é muito louco, você vai encontrar muita gente louca’”, diz. Muitos pais chegam ao Denarc indignados. “Eles dizem que os filhos não usariam drogas, mas não é bem assim. Os pais precisam ficar muito atentos às companhias e aos sites que os filhos freqüentam na Internet”, alerta o delegado do Denarc.

Meios eletrônicos

Crime virtual no Brasil existe, de acordo com o delegado titular da 4.ª Delegacia de Meios Eletrônicos de São Paulo, Plínio Salles, desde que a Internet passou a ser explorada comercialmente, em 1994.

Em 2001 foram criadas as delegacias de meios eletrônicos, justamente em função da prática de crimes na rede. “O crime na Internet é evidente. Não apenas no Orkut, mas na Internet em geral”, afirma.

Segundo o delegado, atualmente o maior entrave para a investigação policial dos crimes virtuais está na dificuldade de conseguir as informações. Uma vez que o inquérito policial é instaurado, para obter as informações necessárias é preciso que a carta rogatória seja encaminhada para a Califórnia (EUA), onde está baseado o Google, para que sejam tomadas as providências solicitadas pela polícia brasileira.

Central facilitaria investigação

O presidente da organização não-governamental (ONG) SaferNet do Brasil, Thiago Tavares Nunes de Oliveira, participou da audiência pública sobre crimes virtuais, em Brasília. A ONG produziu um dossiê de 150 páginas que traz denúncias de crimes de pornografia infantil, raciais, venda de drogas, de receitas médicas e de medicamentos sem receita na comunidade Orkut, do Google. Cinco mil pessoas estariam envolvidas nestes crimes.

Na audiência realizada em Brasília, segundo a assessoria de imprensa da Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM), o presidente da SaferNet “ressaltou a necessidade de criar no Brasil uma central para receber denúncias, a exemplo do que já existe em 23 países”.

A central ficaria conectada às centrais de outros países e as denúncias seriam encaminhadas para o Ministério Público e a Polícia Federal. Isso tornaria a investigação e a apuração do crime mais eficazes, de acordo com o presidente da SaferNet.