Os movimentos nacionalistas sempre foram o motor e sustentáculo de governantes populistas. O populismo é uma fórmula de desenvolvimento que está sempre ressurgindo em países subdesenvolvidos. Consiste, principalmente, em permitir um espaço político no qual as classes trabalhadoras são capazes de expressar algumas reivindicações. O populismo está sempre latente na tentativa das classes dominantes se acercarem das classes subalternas, procurando manipulá-las politicamente em momentos de crise, para engendrar novos pactos que assegurem a continuidade da dominação.
Para melhor compreender, vamos a exemplos históricos: em 1937 a Bolívia expropriou a norte-americana Esso Standard Oil, sob os mesmos argumentos de “exploração” das riquezas naturais em detrimento dos interesses do povo. A multinacional, com seu “capital espoliador”, era a responsável pela fome dos pobres bolivianos, segundo o presidente da época, um tal David Toro. Resultado: a oligarquia se enriqueceu com a tunga à Standard Oil, o povo continuou miserável e o petróleo e o gás, debaixo da terra, sub-explorado por falta de capital e de tecnologia.
Em 1970, o presidente Augusto Ovando Cândia repetiu o gesto cassando a concessão da também americana Gulf Oil. Na continuidade, dessa vez não só o povo boliviano continuou na indigência como o próprio Estado faliu porque o dinheiro desviado do petróleo manteve por anos um enorme cabide de empregos, com finalidades políticas. Obviamente, a expropriação também fez milionárias as “zelites” então dirigentes, hoje com residências fixas na Riviera francesa e em Miami.
Agora é a coitada da Petrobras, aprendiz de multinacional, que paga o pato. Uma empresa construída a duras penas e salva de governos populistas somente por causa de um detalhe. Nunca tivemos volume de petróleo que pudesse ser explorado em terra firme e atrair cobiças. É coisa recente a tecnologia da extração de petróleo e gás na plataforma marítima, sob lâminas d’água profundas. Aliás, tecnologia desenvolvida pela própria Petrobras.
A empresa, pelo esforço e competência dos seus técnicos, é hoje um patrimônio do povo brasileiro. Tem suas ações negociadas em bolsas internacionais e, o que é muito importante, conta com milhares de pessoas físicas entre os seus acionistas, inclusive trabalhadores que empenharam parte do seu Fundo de Garantia do Tempo de Serviço. A Petrobras, se transformada a totalidade das suas ações em dinheiro vivo, vale mais de R$ 200 bilhões. Explora petróleo e refina, até nos Estados Unidos. Ainda assim, é modesta se cotejada com a própria PDVSA da Venezuela, mas dá um banho de know-how tecnológico.
O “compañero” Evo Morales, índio da etnia aymará, decretou a expropriação dos bens da Petrobras na Bolívia e gerou um rombo de quase US$ 1 bilhão a “nosotros”, seus vizinhos. Um assessor de Lula disse que “o governo foi pego de calças curtas”. Como se o governo já não vivesse de calças na mão há muito tempo... Lula entusiasmou-se com a sua predestinação de operário que ascendeu ao poder para liderar não só o Brasil como todo o Cone Sul. Tal qual o escoteiro da classe “lobinho” que vai acampar pela primeira vez, Lula estava certo de poder dominar qualquer perigo na mata, com seu canivete na cinta. Acontece que o “compañero” Hugo Chávez, da Venezuela, também quer o galardão de um novo Simon Bolívar e trata de reforçar a sua pseudo-hegemonia na América Latina. Para colocar em prática suas ambições, já brigou com o presidente Fox, do México; com Alejandro Toledo, do Peru, e mandou às favas o “compañero” colombiano. Chávez cooptou Lula com seus sorrisos e linguagem debochada. Dele se utilizou quando a própria classe média venezuelana se encheu do seu populismo demagógico e quase o apeia do poder. Agora, alinha-se ao parceiro historicamente oprimido num papel de “salvador da pátria”. Evo Morales, coitado, vive a doce ilusão de que Fidel Castro e Hugo Chávez vão partir em seu socorro ao primeiro grito. O presidente boliviano cita Cuba como exemplo de desenvolvimento econômico. É verdade que os cubanos vivem à míngua e sem perspectivas, mas num estágio um pouco melhor que o povo boliviano. Daí a Cuba ser um modelo desenvolvimentista, a distância é grande.
Hoje somos os “imperialistas brasileños” e a Petrobras é o Grande Satã. Foi o que conseguiu o presidente Lula com sua visão caolha da política internacional. Fora a ambição ilusória de ser, um dia, o grande líder operário que fala em nome de uma solidariedade latino-americana cada vez mais distante. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)