As histórias deles são de lembranças dolorosas da época da 2.ª Guerra Mundial, na campanha dos combatentes brasileiros na Itália, entre 1944 e 1945. Mas o reconhecimento e o sentimento de cumprimento do dever toma conta dos pracinhas (ex-combatentes) principalmente no dia 8 de maio. Em Bauru, eles serão homenageados hoje na 6.ª Circunscrição do Serviço Militar (CSM), às 9h.
Os 25 mil soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) adotaram como lema “A cobra está fumando”, em resposta àqueles que consideravam ser mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra. Eles não só enfrentaram os conflitos, como depois que retornaram ao País vangloriaram-se do fato de ter escrito parte da história mundial.
A FEB desembarcou na Itália em julho de 1944 e entrou em combate em setembro. Ao final da campanha, havia aprisionado mais de 20 mil soldados inimigos, 80 canhões, 1.500 viaturas e 4 mil cavalos, saindo vitoriosa em 21 batalhas. Aproximadamente 13 anos depois que retornou ao Brasil, o pracinha José Colomeira ajudou a fundar a seção de Bauru da Associação dos Ex-combatentes da 2.ª Guerra Mundial. Hoje, aos 84 anos, orgulha-se do fato da entidade possuir 18 membros na cidade. As histórias da época ainda estão na memória recente de Colomeira. Com problemas de audição no ouvido esquerdo, ele conta que foi o efeito de uma bomba. “Estava perto da bomba que foi jogada pelos alemães. Lembro-me que saiu muito sangue do meu ouvido. De outros colegas, saiu sangue dos olhos, axilas e nariz”. Outra lembrança que traz tristeza para ele é a do estilhaço de uma granada. “As granadas alemãs estouram no ar e deixam estilhaços no chão. Um deles atingiu um colega que teve as nádegas cortadas como o efeito de uma faca”, conta.
Em casa, guarda as medalhas que recebeu e livros que possuem o nome de todos os ex-combatentes. “Orgulho-me de dizer que os brasileiros de uma única tropa conseguiram prender 15 mil alemães de uma só vez”, diz. Depois disso, chegou a conhecer o Papa Pio XII e recebeu uma medalha de condecoração do Exército dos Estados Unidos.
Durante a guerra, lembra-se de um padre italiano que foi pacificador. “Quando um grupo de alemães estava acuado e os brasileiros estavam à frente, um padre teve o papel de evitar uma carnificina. Os brasileiros também seriam atingidos, mas os alemães estavam mais vulneráveis. Percebendo isso, o padre levantou um lenço branco e andou próximo aos alemães. Eles aceitaram se render e não houve mortes naquele momento”, emociona-se. “Não desejo isso (estar em uma guerra) para ninguém. Mas depois que cheguei no Brasil, tive muitas alegrias”, conclui.
O pracinha morador de Bauru, Armando Pernanchini concorda com o amigo no fato de que só guarda boas lembranças do reconhecimento que recebeu quando voltou ao Brasil. Do período que permaneceu na Itália, no entanto, tem lembranças tristes. Ele estava no primeiro escalão, em regimento com aproximadamente 800 soldados. Na ocasião, mais de 5 mil soldados do Estado de São Paulo foram enviados ao Exterior e chegaram na Itália no dia 16 de junho de 1944, em viagem de navio que durou 16 dias. “Todos tinham medo do que iam encontrar no país estrangeiro. Quando chegamos em Nápoles (Itália) não havia um vidro de janela sequer que estivesse inteiro. Só existiam estilhaços, tamanha era a força das bombas”, conta.
Depois de dois meses de intenso treinamento com soldados norte-americanos, os soldados começaram a enfrentar os alemães. Em Massarosa e Camaiore e Monte Prano vieram as primeiras vitórias. Já em Barge, os brasileiros sofreram um contra-ataque que deixou muitos feridos. “Substituímos os canadenses, mas o contra-ataque dos italianos foi feroz. Os Estados Unidos deram descanso de sete dias para os soldados se recuperarem. Não me feri, mas ajudei muitos amigos a se levantarem no campo de batalha”, recorda-se.
Na arrancada final dos combatentes brasileiros, a cidade de Turim foi conquistada. Em 2 de maio de 1945 foi a vez da cidade de Susa. O dia 8 de maio ficou conhecido como o Dia da Vitória, marcando oficialmente o fim da guerra.
Memória
O filho do também ex-combatente Alcides Augusto, Antônio José Augusto, perdeu o pai na semana passada. Mas guarda na recordação a ética e moral que o pracinha transmitiu na educação. “Ele não era rígido, mas gostava das coisas certas. Contava histórias da época que foi combatente. São ensinamentos que levaremos para toda a vida”, conta o filho.
Augusto e outros pracinhas que já morreram também serão homenageados hoje, em cerimônia na 6.ª CSM. O relações-públicas e 2.º tenente da 6.ª CSM, Eurico Célio Tieppo Spiri explicou que no caso dos ex-combatentes falecidos, a homenagem será feita pelo pelotão. “Vamos fazer uma chamada de todos os ex-combatentes. A tropa irá responder para aqueles que já faleceram”, explica.