08 de julho de 2026
Internacional

Sem solução, carta do Irã é sermão a Bush

Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Teerã - A carta enviada na segunda-feira ao governo americano pelo presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, no que parecia ser um surpreendente gesto de reconciliação e argúcia diplomática, contém um grande número de críticas ao governo de George W. Bush e aos valores ocidentais e nenhuma proposta concreta para solucionar a crise, como havia prometido a república islâmica.

Endereçada a Bush, que é chamado de “Vossa Excelência”, a carta, cheia de referências religiosas e históricas, afirma que o sistema democrático praticado pelo Ocidente fracassou e que o uso de prisões secretas e alguns aspectos da Guerra no Iraque não são compatíveis com os valores cristãos do presidente americano. Mas não faz referência direta às ambições nucleares do Irã, maior ponto de atrito entre os dois países.

O texto, de 18 páginas, escrito em farsi e traduzido ao inglês, é a primeira mensagem pública de um líder iraniano ao governo americano desde que os dois países romperam relações diplomáticas, em 1979. A Casa Branca disse que não reagiria à carta.

Mas diplomatas americanos que leram a carta disseram ao “New York Times” que ela oferece uma interessante janela para a mentalidade iraniana, especialmente por refletir um desejo de lidar com ressentimentos causados por divergências do passado, em vez de discutir a crise atual do programa nuclear do país.

Ahmadinejad disse ontem em Teerã que esperava uma resposta à carta. “Esperaremos a reação do destinatário e agiremos de acordo com essa reação”, afirmou, antes de embarcar para a Indonésia. O tom da carta é de sermão. Ahmadinejad descreve os erros e injustiças cometidos pela política externa americana e defende a pesquisa científica, numa das poucas referências à controvérsia nuclear, como “um dos direitos básicos das nações”.

O líder iraniano também faz analogias entre a invasão do Iraque, em 2003, e as ameaças ao Irã, sugerindo que os EUA usaram pretextos mentirosos para derrubar Saddam Hussein e que agora sofrem as conseqüências. “Sob o pretexto da existência de armas de destruição de massa, essa grande tragédia engolfou ambos os povos, do ocupante e do ocupado”, escreveu Ahmadinejad, que no entanto manifesta satisfação com a queda do “ditador assassino” Saddam.

Ahmadinejad, que no ano passado provocou comoção mundial ao dizer que Israel deveria ser “apagado do mapa”, volta a colocar em dúvida o Holocausto e a base em que Israel foi criado para questionar se o apoio americano a esse “regime” bate com os ensinamentos cristãos.

“Será que isso leva de forma lógica ao estabelecimento do Estado de Israel no Oriente Médio ou ao apoio a ele? Um regime foi estabelecido e não demonstra compaixão nem a crianças, destrói casas com seus ocupantes, anuncia seus planos de assassinar personalidades palestinas e mantém milhares de palestinos na prisão.”

Ahmadinejad chama os atentados de 11 de Setembro de “horrendo incidente”, no qual a morte de inocentes foi “deplorável’’, mas questiona: “Por que aspectos dos atentados foram mantidos em segredo? Por que não fomos informados sobre quem fracassou em suas responsabilidades?’’ A carta fala da América Latina, ao criticar a falta de apoio da Casa Branca a governos eleitos no continente.

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Pacote de sanções

Teerã - O Conselho de Segurança da ONU dará ao Irã a chance de escolher entre uma série de incentivos para colaborar e o risco de sofrer sanções, caso continue a desafiar as recomendações da organização e mantenha seu programa de enriquecimento de urânio.

A decisão dá mais tempo para a diplomacia e afasta, pelo menos por enquanto, a possibilidade de que a república islâmica sofra punições.

A secretária de Estado dos EUA, Condoleezza Rice, entretanto, reiterou que essa posição, consolidada em um Conselho de Segurança dividido, não deve excluir uma resolução firme, que transmita ao Irã “que seu comportamento é inaceitável e que o país precisa voltar à mesa de negociação”.

Representantes de EUA, Rússia, China, Reino Unido, França e Alemanha chegaram à decisão de esclarecer ao Irã os custos e benefícios de manter seu programa nuclear depois que uma reunião de mais de três horas em Nova York na última segunda-feira não produziu uma resolução de consenso.

Nos próximos dias, ainda será preparado um pacote de incentivos e possíveis sanções se o Irã persistir com o programa nuclear por representantes dos países europeus.