Pirajuí - Sob vaias, gritaria, panelaço e ameaças, a ajudante-geral Tatiane Pereira, 23 anos, deu entrada ontem pela manhã na cadeia feminina de Pirajuí (58 quilômetros de Bauru). Ela foi presa anteontem, em Agudos, após confessar ter colocado a filha recém-nascida dentro de vários sacos plásticos, queimados com a criança dois dias depois numa fogueira feita por ela. Como crimes dessa natureza são inaceitáveis no sistema carcerário, a moça será mantida numa cela isolada.
Sua única companheira será a detenta responsável pela faxina do prédio, informa a delegada titular de Pirajuí, Rosemeire Bárbara, também diretora da cadeia. De acordo com ela, Tatiane parecia apática mesmo diante das intimidações. Algumas mulheres chegaram a prometer-lhe um banho de água fervente. “Eu, pelo menos, não a vi chorar (em função dos constrangimentos)”, conta a delegada.
Lágrimas também não foram percebidas pelo médico que a acompanhou durante o parto, realizado no último dia 28. Na opinião dele, que pediu para ter o nome preservado, Tatiane não apresentava indícios de depressão pós-parto. “Só se ela dissimulou muito”, comenta. A possibilidade será investigada durante inquérito policial.
Segundo o delegado Jáder Biazon, profissionais do hospital serão ouvidos para que seja possível colher indícios sobre o estado emocional da ajudante-geral no pós-parto. “Ela estava mais emotiva. Depois do acontecido, eu a peguei tomando antidepressivo. Ela dizia que, quando ficava sozinha, chorava o dia inteiro, à noite também. Eu percebia que ela levantava muito à noite”, conta o marido de Tatiane.
Sentimentos contidos
No entanto, a pessoa em depressão nem sempre chora. “Ela pode ficar sem expressar os sentimentos. Não é uma análise superficial que vai indicar (uma eventual depressão). Eticamente, a gente nem pode fazer uma análise, podemos apenas falar de maneira geral”, explica a psicóloga Maria Lúcia Biem.
De acordo com ela, além da depressão pós-parto, outros dois problemas emocionais podem acometer mulheres após o nascimento do bebê. Um deles é a tristeza materna. O outro, a psicose puerperal - um quadro delirante. Em qualquer um dos casos, problemas anteriores sofridos pela paciente podem agravar seu estado de saúde.
“A mulher pode chegar a uma ruptura do racional”, explica Biem. Na opinião dela, uma gravidez indesejada poderia tornar a situação ainda pior. Tatiane escondeu os nove meses de gravidez de amigos, vizinhos e do próprio marido, porque o companheiro havia se submetido a uma vasectomia dois anos antes.
“É possível que, apesar da cirurgia, a criança seja dele. Ele pode ter, por exemplo, um terceiro canal, ou uma recanalização espontânea”, comenta o urologista Agnaldo Nardi.