08 de julho de 2026
Articulistas

Adeus, querida Bauru


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Depois de mais de meio século testemunhando o seu progresso, trabalhando aqui, colecionando amigos e amigas e – o mais importante – como esposa e companheira do poeta Nidoval Reis, chegou o momento de dizer adeus a Bauru. E nesta despedida seria inconveniente citar mesmo que seja um só nome e injustiçar amigos que temos às centenas, talvez milhares, nesta amada cidade. Costumo dizer que o maior legado que Nidoval me deixou como herança foram os amigos.

É chegada a hora de eu buscar o repouso da terceira idade nas bênçãos e sob o abrigo de Bom Jesus (da Lapa), a cidade da Bahia que me viu nascer, e onde pretendo passar os meus últimos dias, ao lado de minha irmã Alcir e de sobrinhos.

Eu e Nidoval, que hoje teria 83 anos, chegamos a Bauru como última etapa de uma peregrinação de sofrimento, em busca da saúde perdida, em conseqüência da tuberculose. Nossas vidas em muito coincidiam. Eu vim da Bahia para tratamento em Campos do Jordão, onde nos conhecemos, em 1949. Sobre essa cidade, ele escreveu “Cidade Enferma – Esta, senhores, é a cidade enferma/ onde a pobreza vem buscar saúde/ e a burguesia, em Cadillacs belos/ prazeres busca, num contraste rude”.... “E sobre o alto da montanha verde/ numa paisagem de contraste rude:/ vive o enfermo a correr da morte/ passa o turista a borbulhar saúde”.

Nessa via-sacra rumo ao Calvário, também juntos estivemos no Sanatório de Divinolândia. A tísica, então impiedosa, que vitimava não só escritores e poetas (como Rodrigues de Abreu, aos 30 anos), obrigou tanto a Nidoval quanto a mim que retirássemos um de nossos pulmões.

O último ato dessa triste peça do destino foi a nossa transferência para Bauru, onde, no Hospital Manoel de Abreu, vieram a cura, os amigos e os nossos empregos. Ele passou a ser radiologista e eu atendente do Centro de Saúde. Eu aqui permaneci, mesmo após a sua partida, durante mais de 50 anos. Embora nascido em Barretos (distrito de Laranjeiras), Nidoval amou, promoveu e enalteceu Bauru como poucos filhos desta terra. No Poema lírico de Bauru, ele diz: “Se ruas de minha infância,/ em suas ruas houvessem,/ eu não seria (quem sabe?)/ o seu menino de agora...” Após a sua morte, suas cinzas eu as depositei no solo dessas duas cidades que tanto amou. Eu não poderia partir sem antes deixar um abraço e uma saudação às autoridades, aos amigos de toda a imprensa, onde ele militou, do Centro de Saúde, muitos já aposentados, e minhas amigas e amigos do Jardim Terra Branca. Que Deus abençoe a todos.

A autora, Hilda Reis, é esposa de Nidoval Reis, um dos maiores poetas da história de Bauru