08 de julho de 2026
Cultura

Estação é cenário para documentário

Adriana Fricelli
| Tempo de leitura: 4 min

O relógio marca 5h30. Nas lentes das câmeras, o sol começa a iluminar a estação da extinta Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. Fotografia perfeita para a primeira tomada, gravada na manhã de ontem em Bauru, do documentário “Karaja – O Filme”, com lançamento previsto para outubro no Festival de Cinema do Rio.

O longa, realizado pela produtora carioca Código Solar sob a direção do jornalista Marcelo de Paula, vai refazer a viagem do diretor do Rio de Janeiro à comunidade indígena de Carajás, na reserva da Ilha do Bananal, em Tocantins. Na ocasião, o Trem do Pantanal, com saída em Bauru e destino em Corumbá (MS), foi o meio de transição entre o centro urbano e o universo pantaneiro.

Separando as duas viagens, 15 anos. Lugares, antes sinônimos do progresso das linhas férreas, hoje são pontos abandonados; e trens, que levavam passageiros, história e cultura, encontram-se desativados.

“Quando vim à estação pela primeira vez, havia um grande trânsito de pessoas e mercadorias. Fico deprimido em ver uma estação tão linda como essa abandonada”, lamenta De Paula.

E é a partir desse olhar que “Karaja” começa a ser narrado. “A primeira cidade-cenário do longa é Bauru. Aqui, minha movimentação focará a estação. O documentário começa relembrando os tempos de atividade da estação até sua desativação e os conseqüentes prejuízos que trouxe à cidade e ao País”, comenta o diretor.

O longa é orçado em R$ 1,3 mil e 70% da verba para sua realização já foi captada. O restante o diretor espera conseguir de patrocinadores. “O equipamento utilizado barateia a produção e o custo final foi dividido por diversas cidades onde o filme será rodado. Mas, nesse orçamento, ainda não está incluída a telecinagem”, coloca.

Com uma DV-Cam e duas Mini-DVs, o diretor e sua equipe - composta pela produtora executiva e câmera assistente Carla Mendes e pelo assistente Luiz Carlos Lima – contaram com o apoio da Prefeitura Municipal de Bauru, que interditou a rua em frente à praça Machado de Melo para as filmagens. “Como vamos falar da desativação da estação, precisava da rua vazia. Para mim, essas cenas são as mais complicadas porque acabam incomodando algumas pessoas”.

Os profissionais também tiveram a ajuda dos adolescentes bauruenses Ivan Augusto Vinagre e Henrique Aquino, filhos respectivamente do secretário municipal de cultura e do diretor do Departamento de Proteção ao Patrimônio Cultural da secretaria. Ambos são responsáveis pela assistência de produção e câmera. “Nós vamos trabalhar com jovens em quase todas as cidades. É uma forma de estimular a questão do cinema na cabeça deles”, conta o diretor.

A experiência para os jovens foi muito gratificante. “Pretendo fazer faculdade de cinema e, com essa oportunidade, foi legal ver na prática como é feito um documentário”, conta Vinagre, que tem em seu currículo a direção do curta-metragem “Perímetro Urbano”.

A equipe fica até hoje na cidade captando imagens da parte externa e interna da estação, com seus trens desativados, além da Maria-Fumaça, do Calçadão e de outros pontos que identificam Bauru. As filmagens ainda contarão com os depoimentos dos ferroviários aposentados Alberto Soares Ribeiro, José Roberto e Walter Santos.

“O primeiro nome escolhi após ter contato com o livro ‘Nos Trilhos da Memória: Ferro e Sangue’, editado pela Secretaria Municipal de Cultura. Já o Walter e o Roberto foi o próprio Alberto que indicou. O Walter desenhou à mão algumas marcações dos trilhos que depois foram utilizadas pela própria empresa. Isso me sensibilizou bastante”.

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‘Baila comigo’

“Se Deus quiser, um dia eu quero ser índio/ Viver pelado, pintado de verde num eterno domingo/ Ser um bicho preguiça e espantar turista/ E tomar banho de sol, banho de sol, banho de sol, sol”. É com essa música que o diretor espera finalizar o longa. “Ganhamos um presente da Rita Lee que nos concedeu o direito de usar a música”, comemora De Paula.

Para ele, a canção sintetiza a mensagem que espera passar com o documentário. “Terminamos o longa com a idéia da importância de salvaguardar a cultura dos Carajás. O que eu quero é ajudá-los, fazendo com que as pessoas conheçam e entendam a importância e a riqueza desses índios”.

O diretor ainda pontua o compromisso social com as aldeias indígenas retratadas no documentário. “Arrecadamos cerca de 700 livros entre enciclopédias e obras primas de nossa literatura. Vamos dividi-los entre as aldeias de Terenas e Carajás”, diz.

O amor pelos índios surgiu durante uma viagem de auto-conhecimento realizada pelo diretor há 15 anos. Foi quase um ano vivendo como índio nas aldeias Terenas (MS), Xavantes (MT) e Carajás (TO). Ao retornar, De Paula fundou, em parceria com a produtora Carla Mendes, a Código Solar com o sonho de um dia refazer a viagem. “Senti uma grande emoção ao reencontrar alguns desses índios. Está sendo um prazer enorme fazer esse documentário que aborda temáticas tão brasileiras”.