Trânsito intenso, buracos nas ruas, insegurança. Todos estes “conflitos” já seriam suficientes para tornar a vida urbana um tanto estressante. No entanto, outros incômodos podem deixá-la ainda mais complicada. Caso de quem mora ao lado de estabelecimentos comerciais, instituições religiosas e grandes avenidas que emitem poluição sonora.
Por outro lado, estes mesmos aspectos da urbanidade podem ser vistos como benéficos, principalmente para aqueles que residem próximo a farmácias, padarias e áreas verdes.
No primeiro caso, bares, serralheria e igrejas lideram a lista de reclamações, que conta também com escola, oficina mecânica, ponto de ônibus, feira livre, boate e corredores comerciais em vias de acesso a bairros.
De acordo com o capitão Flávio Jun Kitazume, comandante da 3ª Companhia da Polícia Militar, os locais que representam incômodo aos vizinhos podem variar dependendo da região da cidade. No Centro e zona sul, boates e corredores comerciais. Nos bairros periféricos, os maiores desentendimentos ficam a cargo de bares e igrejas. “Grande parte das reclamações são referentes a brigas e som alto em bares”, comenta.
Por perturbarem o sossego dos vizinhos e darem trabalho para a polícia, os bares acabam influenciando até na venda e locação de imóveis. Segundo Wânia Pôrto, empresária e delegada do Conselho Regional de Corretores de Imóveis no Estado de São Paulo (Creci-SP), é difícil negociar imóveis próximos a estes estabelecimentos. “Há bares que não perturbam, têm preocupação com a acústica do local, mas ninguém quer morar perto de boteco, porque os freqüentadores fazem muita algazarra”, afirma.
A dona de casa Joice Nunes Souza, 42 anos, mora há três anos próxima a um bar no Jardim Solange e conta que só consegue dormir após as 2h, quando o proprietário costuma encerrar expediente. “É insuportável. Eles jogam baralho, gritam, ligam música alta e, muitas vezes, fazem xixi na rua. Já chamei a polícia, mas disseram que eu precisava fazer B.O. (Boletim de Ocorrência). Tenho medo de eles quererem me bater depois”, diz.
Em alguns casos, conversar ou fazer abaixo-assinado resolve, mas na maioria dos casos é preciso formalizar a reclamação em um distrito policial para lograr êxito. “A perturbação do sossego e da ordem não é um crime que se consuma sozinho. Por isso o reclamante precisa ser identificado e fazer uma queixa
Formal (B.O.). Em seguida é instaurado inquérito para apurar a perturbação”, explica o capitão Kitazume.
Noites em claro
Quatro horas da manhã. O autônomo Alexandre Ducatti, 25 anos, revira na cama, cobre a cabeça com o cobertor, tapa os ouvidos com o travesseiro, mas a música é alta e as cantorias varam a madrugada. Dormir e assistir televisão são tarefas quase impossíveis, pois o som da igreja ao lado de sua casa impede o sossego ou a audição de qualquer coisa.
Durante muitos anos, as noites de Ducatti foram assim. Morador do Jardim Bela Vista desde o seu nascimento, ele conta que a poluição sonora proveniente de uma igreja ao lado de sua casa incomodava bastante. Hoje melhoro, após diversas conversas e reclamações. “Era muita poluição sonora, carros estacionados em frente à garagem da minha casa. Todos os vizinhos se sentem incomodados”, ressalta.
Outra vizinha da igreja, que prefere não ter seu nome divulgado, afirma que precisou até mudar seu quarto de lugar. O dormitório, que antes ficava de frente para a igreja se transformou em uma sala e um novo cômodo foi construído nos fundos da casa.
A maioria das pessoas entrevistadas pela reportagem pediu a não-publicação de seus nomes, pois acreditam que isto acirraria ainda mais os conflitos e desentendimentos. Caso de um servidor público municipal que reside ao lado de uma serralheria no Parque Vista Alegre.
Segundo ele, o estabelecimento é “muito barulhento” e emite poeira e um cheiro desagradável de produtos químicos. “Eles não têm horário. Trabalham de madrugada, aos finais de semana e até nos feriados. É um verdadeiro inferno”, frisa.
A maioria dos vizinhos de estabelecimentos barulhentos afirma que após alguns anos se acostumaram com o incômodo constante e aprenderam a abstrair a poluição sonora. No entanto, prefeririam ter sua tranqüilidade de volta.
“Hoje quase não acordo mais no meio da noite, pois acostumei, mas no início era terrível. Barulho de caixas de madeira batendo, caminhões, conversas. Isto atrapalhava todo o meu dia, porque eu dormia mal e vivia cansada”, salienta a jornalista Isabela Banzatto, 22 anos, que mora em um prédio residencial localizado ao lado de um depósito de bananas no Jardim Brasil.
Seguindo a velha máxima de “os incomodados que se retirem”, Banzatto conta que alguns moradores já se mudaram por não suportarem o expediente noturno do depósito. “Algumas pessoas trocaram de apartamento dentro do mesmo prédio para fugir do barulho. O problema maior é que o depósito estava aqui antes do prédio ser construído”, diz.