09 de julho de 2026
Articulistas

De filha para mãe


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Esta carta foi escrita e deveria ter sido enviada ao Jornal da Cidade em setembro de 1995. Hoje já não temos mais a mãe conosco, mas a carta está aqui e o amor também. Existem momentos que as pessoas imaginam e conseguem tornar realidade. São importantes. Existem outros que a vida nos apresenta, no inesperado da alegria ou da tristeza. São produtos do imponderável ou do destino, como querem algumas pessoas. E é da natureza humana recordar os que estão associados à felicidade. Mas, existe uma outra gama de momentos. São aqueles que nos emocionam e que foram construídos por nós, ainda que não planejados para esse resultado. Esses representam o que de melhor o ser humano pode almejar. Dia 2 de setembro de 1995. Quase que ao mesmo instante do morrer do dia, renascia em meu coração um mundo de lembranças. Quando o pano que cobria a placa de inauguração foi retirado, todos puderam ler: Núcleo Habitacional “José Regino”. O nome de meu pai perpetuado como patrono de mais de mil novos lares. Uma linda homenagem.

Esse é o exato momento que José Regino preparou, como rotina de vida, sem nunca ter premeditado tamanha recompensa. Sua maneira de ser e de viver foram os pilares que sustentaram uma vida digna, cujo resultado também estava expresso naquela honraria. Naquele momento, porém, me veio outra idéia. O quanto a emoção que eu sentia estava sendo sentida, igualmente, por toda nossa família. Em especial por você, Mãe, por tantos anos a companheira de lutas e vitórias, ao lado de José Regino. E eu percebi que devia associar o tributo a ele como algo que também lhe pertencia. E foi então que, sem que ninguém percebesse, olhando o seu perfil, recortado pela luz dos cinegrafistas, me dei conta de que estava revendo boa parte da vida que passou. Recordei momentos da infância e o quanto aprendi com os exemplos de vocês. Com o comportamento de vocês. Até com a solidariedade entre vocês. Naquele momento, senti que deveria dizer tudo isso a você. E, agora, estou mais feliz ainda pelo fato de muitas outras pessoas estarem lendo essa mensagem. Muito mais pela necessidade que sinto de levar estas palavras a tantas outras pessoas amigas, que, certamente, comungam do mesmo sentimento de reconhecimento à vida e ao trabalho do meu Pai, José Regino. Foi um momento que vocês construíram e nós acabamos ganhando de presente. Um régio presente, pois nos estimula a seguir em frente. E é muito bom quando se pode cultuar o passado, como uma força a mais e muito poderosa, que nos ajuda a compreender e a enfrentar melhor os desafios de agora. Que bom, Mãe, que temos você ao nosso lado, como uma ponte ideal entre as lembranças e a felicidade que aquele momento nos permitiu. Um grande abraço e um beijo maior ainda.

A autora, Vera Regino Casério, é educadora, diretora do Colégio e da Faculdade Fênix