Berço do movimento, Bauru mais uma vez passou ontem pelo Dia da Luta Antimanicomial sem nada a comemorar. Embora militantes defendam modelos substitutivos em detrimento às internações, nem mesmo a extinção do Hospital Psiquiátrico da Associação Beneficente Cristã (antigo Paiva) – promovida no ano passado – pode ser considerada um avanço na política de saúde mental.
Pelo contrário. O problema apenas foi transferido para outras cidades, que receberam a incumbência de asilar pacientes, antes tratados no município. E para muitos deles (carentes de tratamento que trabalhe suas habilidades para prepará-los a lidar com a vida em pensões ou repúblicas), a mudança de endereço não chegou ao fim. Informações extra-oficiais dão conta de que instituições como a Associação Hospitalar Thereza Perlatti, de Jaú, estariam superlotadas.
A escassez de vagas é indício de novas transferências. A informação não foi confirmada pela assessoria de imprensa da Secretaria do Estado da Saúde. Segundo o órgão, em obediência à uma portaria do Ministério da Saúde, o Estado avaliará a relação entre habitantes e leitos para depois decidir-se por eventuais transferências.
Mesmo assim, de forma geral, a situação é avaliada pela enfermeira psiquiátrica Cibele Mendonça como um retrocesso. Ex-diretora-técnica do Paiva, ela cobra o empenho prometido pelo Conselho Municipal de Saúde. Na época, o órgão se comprometeu a verificar as condições de transferência e de cobrar a instalação dos leitos psiquiátricos.
Ao todo, 30 deles foram aprovados pelo conselho, que cobrou da administração municipal a execução da deliberação, explica Rosemary Lopes de Moura, membro da entidade.
“Estamos aguardando a apresentação de um projeto. O departamento (de saúde mental do município) está se organizando. O secretário municipal de Saúde (Mário Ramos) deixou clara (a instalação dos leitos) no Pronto-Socorro do Bela Vista. Mas não temos o que comemorar (na data). O Pronto-Socorro Central (PSC) não tem condições de atender. Tem recebido (os pacientes da área de saúde mental), misturado com outros. Tem dado problemas”, acrescenta Rose.
De acordo com ela, além do tratamento ambulatorial, os pacientes não dispõem de apoio em Bauru. O titular da Secretaria Municipal de Saúde, Mário Ramos, confirma o interesse em aprimorar os serviços. Destaca que, além do serviço de urgência e emergência a ser instalado no Pronto-Socorro do Bela Vista, a administração municipal estuda a instalação de um novo Centro de Apoio Psicossocial (Caps).
A cidade conta com outros dois, - um infantil-, além do ambulatório de saúde mental e das residências terapêuticas, herdadas do Paiva. “Também solicitamos à Dir-10 (Direção Regional de Saúde) leitos para desintoxicação nos hospitais de Bauru”, conclui.
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Remuneração x hospitais
O alto valor pago aos hospitais e associações filantrópicas estimula as internações psiquiátricas, na opinião do psicólogo e professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp), Osvaldo Gradella Júnior. Favorável a tratamentos que substituam a internação, o professor questiona o fato de problemas financeiros terem sido usados como justificativa para o encerramento das atividades do Paiva.
“É incoerente. Tem algo de errado. A precariedade na área de saúde mental reflete uma situação política. Tem 15, 16 anos de administração de péssima qualidade. Não fizeram nada pela saúde pública. Bauru ficou abandonada”, conclui.
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Programação
Várias atividades estão programadas em Bauru em decorrência do Dia de Luta Atimanicomial. Hoje pela manhã (das 8h às 9h), o Conselho Regional de Psicologia SP – subsede de Bauru - programou a apresentação do curta-metragem “Estrela de Oito Pontas”.
Na seqüência, está prevista a mesa-redonda “Saúde mental: ações entre psicologia, artes e arquitetura”. A partir das 10h, uma outra mesa-redonda será realizada para debater “Luta antimanicomial – diálogos entre psicologia, artes, arquitetura e urbanismo”.
Os interessados também poderão conferir a exposição de fotos “Sobre outro olhar”, com Francineide de Almeida, na Unesp. Outras informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 3227-7167.
Da Redação