10 de julho de 2026
Polícia

Ataque a policiais muda rotina das famílias

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Alvos de ataques dos integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), policiais civis e militares tiveram que mudar a rotina de suas famílias. Mulher e filhos de policiais foram orientados a agir com muita cautela e a não se identificar como parentes deles.

Armas e coletes à prova de balas passaram a fazer parte do traje dos policiais 24 horas por dia desde o último dia 12, quando começou a onda de violência.

Alguns deles, especialmente aqueles que trabalham em delegacias especializadas, chegaram a ficar 28 horas sem dormir, sob muita pressão.

Todas as informações eram checadas, mesmo sem passar por triagem, diz um investigador com 20 anos de experiência. “Faz 20 anos que trabalho na polícia e nunca vivi situação semelhante.” Seu nome está sendo preservado por questões de segurança.

Para ele, o momento mais difícil foi quando a filha de 11 anos de idade pediu para ele se aposentar. “Ela estava acompanhando os fatos pela televisão e, quando eu cheguei, ela pediu para eu me aposentar.”

Segundo ele, a família toda foi orientada a mudar os hábitos. “Minha mulher não entra em casa com o carro sem antes dar uma volta na quadra e só abre o portão se sentir que a situação é segura. Minha filha foi orientada a não falar que o pai é policial.”

Ele viveu os dois lados da moeda. “Eu sabia que a situação era preocupante, mas não podia deixar a família em pânico.”

Outro policial civil conta que a parte mais difícil dos ataques é a emocional. “Temos que agir como policial na defesa da sociedade, temos que pensar na nossa família e na nossa própria vida. É uma pressão muito grande.”

Para ele, o serviço triplicou, mas considera um lado bastante positivo. “A sociedade passou a nos apoiar. Houve uma mudança de comportamento. Acredito que eles se solidarizaram porque estávamos no mesmo barco.”

“Preciso descansar”

Um dos delegados que trabalharam durante o período mais crítico desde que os ataques começaram desabafou: “Estou um farrapo de gente”. A confissão revela que o período de sono dos policiais não ultrapassou três horas por noite.

Outro policial civil comentou que, apesar do cansaço, não abre mão de participar. “Fomos convocados, mas mesmo que eu não fosse, me colocaria à disposição. Afinal, é minha obrigação.”

Segundo ele, outra dificuldade encontrada nesse período é “ensinar” os policiais novatos. “Coincidentemente, há poucos meses foram admitidos vários policiais civis e eles ainda não têm traquejo para lidar com a situação.”

Trabalhando “por fora”

A rotina dos agentes penitenciários também mudou. Alguns optaram por não usar o transporte coletivo disponibilizado pelo Estado e orientaram a família sobre os cuidados básicos.

O presidente em exercício do Sindicato dos Trabalhadores do Complexo Penitenciário do Centro Oeste Paulista, Reinaldo Duarte Soriano, confessa que na região de Bauru, a situação pior é em Pirajuí.

Lá, segundo ele, os agentes estão ficando nos corredores, dentro da penitenciária e longe das celas. “Os presos ameaçam estuprar as filhas e mulheres deles.”

Os presos, segundo ele, cavaram um túnel para fuga em massa que não foi fechado. “Isso coloca os agentes em risco. Se houver uma fuga em massa, eles rendem os agentes de novo.”

Durante muito tempo, usar farda da polícia era sinônimo de respeito. Na inversão de valores constatada nesse período, a farda pode significar ameaça de morte. Por isso, alguns policiais militares estão tirando a farda para retornar para casa.

Um deles confessa que costumava deixar parte do fardamento no carro. Mas na atual situação, passou a recolhê-lo. “Eles podem apedrejar o veículo se me identificarem como policial.”

Outro PM comenta que deixou de ir trabalhar de moto. “Vou de carro e tiro a parte de cima da farda. Fico com o colete sob uma camisa normal.”

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Procura por arma

Na única empresa que comercializa armas e munições em Bauru, a procura é grande, conta o proprietário Carlos Assunção. De acordo com ele, nos últimos dias, agentes penitenciários e policiais fizeram consultas sobre preços de armas.

Assunção explica que, apesar da demanda, as vendas não chegaram a ser efetivadas. Ele nega que as pessoas autorizadas a usar armas de fogo estejam procurando por munições.