10 de julho de 2026
Geral

Assim seria a terceira temporada na presidência da República

Augusto Nunes*
| Tempo de leitura: 5 min

Se deixasse o poder ao fim do primeiro mandato, Fernando Henrique Cardoso seria lembrado como o condutor do Plano Real e o arquiteto daconsolidação democrática.

Mas o sociólogotardiamente convertido em político profissional decidi uficar mais quatro anos no poder.

De volta à planície, o homem que domara a inflação e aposentara o autoritarismo era também associado à desvalorização da moeda e a tropeços da privatização. FH diz que aguarda serenamente o julgamento da História.

O sorriso confiantetrai a certeza de que confia sem reservas na absolvição.

O PRIMEIRO PRESIDENTE DA REPÚBLICA REELEITO PARA UM SEGUNDO MANDATO CONSECUTIVO REVELA AS PRIORIDADES QUE SELECIONARIA SE VOLTASSE A OCUPAR A CHEFIA DO GOVERNO

Ele parece sincero quando jura que nunca sonhou com o terceiro mandato. “Oito anos estão de bom tamanho”, sorri Fernando Henrique Cardoso. Faz sentido. No Brasil republicano, só Getúlio Vargas ficou mais tempo no poder (quase 20 anos, somados os 15 da primeira temporada ao período interrompido pelo tiro no coração). E nenhum outro presidente foi reeleito pelo voto popular.

Além do mais, FH examina com benevolência o próprio desempenho. “ Fiz o que deveria fazer”, absolveu-se durante a entrevista exclusiva à Associação Paulista de Jornais. Aparentemente, ele não tem dúvida de que a História já lhe reservou um lugar na rarefeita galeria dos estadistas.

Se rejeita a hipótese da volta, o expresidente aprendeu a acautelar-se contra imprevistos. Na hipótese remota de ser devolvido ao antigo gabinete pelos ventos da política, ali pousaria sobraçando a essência de um programa de governo. É um edifício em construção, mas os alicerces estão prontos. Abrangem quatro setores da administração federal: “ Seja quem for, não importa a que partido pertença, o próximo chefe de governo terá de investir pesadamente em saúde, educação, segurança pública e política externa”, disse na primeira etapa da entrevista, decorrida na sala da presidência do Instituto Fernando Henrique Cardoso.

Os dois primeiros setores compõem o binômio declamado por 10 em 10 candidatos. Segundo o patriarca do PSDB, existem diretrizes claras e verbas suficientes tanto para a saúde quanto para a educação (veja o gráfico). “Os indicadores internacionais não são bons”, reconhece. “Mas todos estão melhorando”.

Também a política externa é uma prioridade previsível na plataforma de alguém que foi chanceler antes de chegar à presidência da República (e que pousara no comando do Itamaraty já com a imagem de sociólogo cosmopolita e poliglota). Ministro das Relações Exteriores do governo Itamar Franco, FH juntou prazer e trabalho. E o chanceler sem pressa aprendeu a costurar acordos entre brigões.

Transferida para o presidente, essa habilidade permitiu a Fernando Henrique revogar pendências que afligiram a América do Sul décadas a fio. Qual teria sido a mais complicada? “ A disputa por regiões de fronteira entre o Equador e o Peru”, revelou. “A assinatura do Tratado do Rio de Janeiro eliminou o conflito que havia originado tantas guerras”, recordou.

FH costuma gabarse da estabilidade que regeu por oito anos as relações entre o Brasil e seus parceiros de subcontinente. “Hugo Chávez já era presidente da Venezuela”, recorda. “Várias vezes eu o convoquei para conversarmos em Brasília. “Ele nunca recusou nenhum convite”, acentuou, enfatizando ironicamente a última palavra da frase.

Esses três setores merecem superior relevância, mas nenhum encabeça a lista de urgências. “A questão da segurançaé a prioridade número 1”, revelou na noite de 9 de maio, depois de autografar no Rio dezenas de exemplares de “A Arte da Política”, desde o mês anterior nas relações dos mais vendidos. A afirmação, formulada na etapa final da entrevista à APJ, precedeu em alguns dias a onda de ataques terroristas que apavorou os grandes centros urbanos do mais poderoso Estado brasileiro.

FH estava em Nova York quando a tempestade desabou. Surpreendeu-se com as dimensões, a intensidade e a extensão do fenômeno. Não com o temporal em si. Carioca de nascimento, Fernando Henrique Cardoso passou a infância numa cidade que a violência desfigurou. Paulistano por adoção, vem testemunhando desde a juventude o avanço do crime organizado na cidade que escolheu para viver.

Durante a Era FH, o governo federal atribuiu aos Estados um papel preponderante no trato dos problemas ligados à segurança pública. “ Mudei meus conceitos nos últimos quatro anos”, reconheceu o ex-presidente. “ Hoje me parece claro que cabe à União traçar uma política de alcance nacional”. Invertida, “os Estados farão os ajustes necessários para cumprir as diretrizes fixadas pelo Planalto”.

Ele se convenceu de que São Paulo e o Rio são apenas os tumores mais visíveis num quadro clínico muito mais vasto. “No universo da criminalidade, estatísticas ainda mais assustadoras podem ser colhidas em outras cidades”, observou. O Recife, por exemplo, ocupa com freqüência a dianteira no ranking das cidades mais violentas. E Vitória, capital de médio porte, ameaça conquistar a liderança nos próximos meses.

Embora aflito com perversidades urbanas, FH é um brasileiro otimista. Aos 75 anos, tem lucidez para saber que dificilmente verá o Brasil redesenhado pelo próximo quarto de século. Mas antecipa que será melhor que o atual. “Nada foi mais importante que a consolidação da democracia”, resumiu no fim da entrevista.

“ E um país que se moderniza politicamente sempre avança em todos os campos”.

Contornos do mapa da mina de verbas O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso garante que as quatro prioridades estabelecidas para um novo governo poderão ser atendidas sem aumento de impostos. “As verbas fixadas para saúde, educação e política externa são suficientes”, afirma. “ Basta que sejam liberadas de fato. Não faz sentido reter o dinheiro previsto no Orçamento da União”.

Para FH, só a segurança pública exige investimentos adicionais. “As verbas aprovadas para 2006 são muito pequenas para suprir as carências evidentes tanto no plano federal quanto no estadual”, diagnostica. Como conseguir o dinheiro que falta?

“ Pode-se agir em dois flancos”, sugere. “ As verbas distribuídas pelo Orçamento devem ser remanejadas. E o combate efetivo à corrupção evitaria a perda de muitos milhões de reais”. Por que FH não liquidou a roubalheira durante seu governo? “A taxa de corrupção não foi tão alta quanto agora”, defende-se. “E a consciência dos estragos que provoca era menor”.

A idéia parece sensata. Mas continua no papel.

*Agenda BR