O governador Cláudio Lembo conseguiu um lugar no foco dos acontecimentos que abalaram São Paulo e boa parte do mundo, ao declarar o que todos já sabiam desde Platão: a maioria pobre vive em conflito com a minoria rica. A “minoria branca brasileira” ainda trata com cinismo os fatores conjunturais que há séculos infelicitam o país com uma escandalosa distribuição de renda. Desde a libertação dos escravos, o estrato social que Lembo chama de “burguesia” somente conseguiu substituir a senzala pela favela. Nada mais. E o que fez o atual governador durante os 21 anos em que participou como membro do partido da ditadura militar? Qual foi a sua colaboração para minorar os injustos privilégios da “minoria branca” e combater a miserabilidade de pretos, pardos e desafortunados de outros matizes?
O pânico e a neurose das populações, hoje, já não estão restritos às grandes cidades. Interioriza-se, chega a Bauru onde, na última segunda-feira, seus habitantes se trancaram em casa deixando desertas as ruas, escolas e supermercados. O Estado se revela incapaz de garantir a segurança dos cidadãos. É evidente que, no momento, não há tempo para se discutir medidas racionais para orientar ações de longa maturação contra a raiz da criminalidade. Mas também não podemos ser tão pragmáticos quanto o deputado Salim Curiatti que chegou a sugerir que se fechassem as fronteiras de São Paulo aos nordestinos. Inútil botar a culpa nos celulares, como se fossem os vilões dessa tragédia. Leis, temos até demais. São esperadas adoções de práticas que garantam um entrosamento de todo o aparelho policial para dar combate ao crime. Esse é o momento, ainda, de se esquecer as diferenças políticas em favor dos interesses nacionais.
As autoridades estão cansadas de saber que temos um modelo prisional falido. Houve rebeliões sincronizadas em presídios paulistas em 2001 e 2002 comandadas pelo mesmo PCC (Primeiro Comando da Capital) que demonstra, novamente, um nível assustador de audácia. Os incidentes deixaram dezenas de mortos – alguns com requintes de crueldade, torturados e decapitados. A tragédia do Dia das Mães expande-se agora para vitimizar policiais e familiares. As “drásticas providências” sempre anunciadas nunca chegam com algum ímpeto para mudar o panorama das penitenciárias. Mesmo que não sirva como atenuante para as barbaridades cometidas, deixa de ser digno de um país civilizado o cenário de seres humanos mantidos em depósitos infectos, sujeitos a toda espécie de promiscuidades, que delinqüem no interior da prisão como o faziam fora, na certeza da impunidade.
O PCC é chamado de “partido” no jargão dos cadeiantes. É provável que isso tenha uma relação com a bandidagem no sistema político brasileiro. A lista dos sanguessugas do Congresso, que nomeia a chamada “máfia das ambulâncias”, chega a 283 deputados. O estado de degradação moral, ética e política é tão grande que os mensaleiros, mesmo flagrados e confessos, foram absolvidos, não só na Câmara Federal como também no próprio partido do Governo. Que exemplo pode dar uma casa de leis e de representação popular onde ganhos e mordomias chegam a R$ 100 mil por mês – o melhor emprego do mundo – e onde se é capaz de corromper por 200 reais? Aí surge o presidente do PT, Tarso Genro, para baixar o nível da discussão e ataca o candidato Geraldo Alckmin. A resposta da oposição chega no mesmo tom e a pauta de votação de projetos do governo é obstruída até que o desafeto se desdiga.
Por incrível, o PCC, como partido, revela-se muito mais ético, organizado e solidário. Seus membros contribuem com R$ 550 por mês, se estiverem “a trabalho” e com R$ 50, se estiverem “afastados”, cumprindo pena. O montante arrecadado é controlado, de maneira transparente por cinco tesoureiros. O dinheiro financia cestas básicas, bolsas de estudos, advogados, compra de TVs para os presídios e até para socorrer os “irmãos” de outras facções. O Comando Vermelho que já levou R$ 2 milhões emprestados. Inadimplência zero.
Estudos da OCDE – Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico mostram que a corrupção não afeta somente os governos, mas também interrompe fluxos comerciais, torna os países menos competitivos, eleva os preços, aumenta as desigualdades sociais, distorce a alocação de recursos e reduz o crescimento econômico. Se o índice de percepção da corrupção no Brasil fosse reduzido em um ponto (estamos atrás da Nigéria) a renda per capita cresceria 3 mil e 600 dólares por ano e, praticamente, eliminaria a miséria sem necessidade de programas emergenciais de socorro a milhões de famílias.
Freud demonstrava que a agressividade surge por causa de ameaças no meio social. A permanente rivalidade da “maioria” miserável contra a “minoria” rica somente terminará no dia em que os “burgueses” se mostrarem mais solidários na solução dos problemas básicos dos que estão por baixo. Ou então, como queria Bakunin, o mais terrível teórico do anarquismo, “no dia em que o último burguês for enforcado nas tripas do último padre’. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)