Livrar-se do aluguel para sempre ou deixar de viver de favor é o sonho da maioria das pessoas. Afinal, “aluguel é dinheiro que vai e não volta”, de acordo com Jackson Lira, 38 anos, pintor que construiu sua moradia. Para conquistar a casa própria, muitos abdicam do descanso nos finais de semana e feriados e colocam a mão na massa, literalmente.
O processo de erguer a residência com as próprias mãos envolve muitas outras pessoas: amigos, familiares e vizinhos se mobilizam em uma ação que não lhes trará nenhum benefício direto. Assim, consolida-se uma rede de solidariedade que garante a realização do grande sonho de muitos bauruenses.
Sofá, televisão, cama, futebol e passeio são trocados por roupa surrada, tijolo, cimento e muito suor. De acordo com o engenheiro, mecânico eletricista José Cabral, conselheiro do Programa de Moradia Econômica (Promore), a maioria das pessoas só se sente realizada quando conquista uma moradia própria. “A casa é uma referência, um porto seguro. Tanto que desde de criança quando nos pedem para desenhar algo na escola, em geral fazemos os contornos de um lar. Está arraigado, faz parte da nossa cultura”, afirma.
O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, que participou de mutirão para construção de casas populares no Núcleo Habitacional Fortunato Rocha Lima, vai mais longe na argumentação. “Pergunte a qualquer pessoa o que ela faria se ganhasse dinheiro na loteria. A primeira coisa que vêm à cabeça é ‘compraria uma casa’”, exemplifica.
Mauro Donizete Jurado, 47 anos, auxiliar de serviços gerais, não ganhou na loteria, mas se orgulha de estar construindo sua casa nos dias “em que sobra tempo” e com os “trocados” que consegue guardar.
Com a ajuda do filho e da esposa, ele está há mais de três anos tentando concretizar seu lar. “A gente faz um pouco. Quando acaba o dinheiro, pára. Depois recomeça. E assim vai. Um dia fica pronta”, diz.
A aparente falta de pressa é resultado dos percalços da vida. Jurado diz que aprendeu a ter paciência e esperar as coisas acontecerem. “Para quem é pobre como eu, não adianta sonhar muito alto. Aos poucos, com trabalho e honestidade, estou conseguindo o que quero”, salienta.
O construtor José de Moura teve ajuda apenas da esposa, pois os filhos eram pequenos à época da construção da casa. No entanto, ele diz que ainda continua fazendo ampliações. “Fiz a casa aos poucos, porque não tinha condições financeiras. Até hoje quando junto um dinheirinho ainda melhoro uma coisa aqui e outra ali”, explica.