09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de pescador: Buteco - Parte 1


| Tempo de leitura: 3 min

Desde que me conheço como gente, sempre estive ligado à pescaria. Quando ainda criança, quase que todos os domingos, em companhia do meu pai, Santos Soldado, íamos pescar no rio Batalha na chácara do Tio Paulino, em Avaí.

As histórias são tantas, algumas inacreditáveis como a maioria das contadas por pescadores nas colunas do Jornal da Cidade.

Numa destas pescarias, no ano de 1976, ao chegarmos à beira do rio, observamos vários espinhaços de piapara de bom porte estirados na margem. Só as cabeças e esqueletos.

A princípio acreditamos ser obra de um grupo de apreciadores de sashimi (uma iguaria oriental à base de filé de peixe cru). Tio Paulino descartou esta hipótese por dois motivos:

1) Aquele local era freqüentado apenas por nós, em razão de ser uma propriedade particular, com um único acesso, pela sede da chácara.

2) As carcaças, incluindo as cabeças, apresentavam aspectos de deterioração diferentes, concluindo ser uma ou duas a cada dia.

Estávamos diante de uma situação misteriosa, mas começamos a pescar. Entre uma fisgada e outra era visível em nós três tentar decifrar a causa daquela mortandade de piapara.

Já se aproximava a hora do almoço, alguns lambaris e mandis estavam garantidos, mas nada de piapara. Isto só aumentava o mistério.

Resolvemos fazer uma pausa para o almoço. Enquanto subíamos em direção a casa, encontramos o gato de nome Buteco descendo em direção ao rio. Pensei: O que pode um gato querer na beira do rio? Meu pai e meu tio pensaram a mesma coisa.

Esperamos o Buteco desaparecer entre os arbustos e fomos atrás. Escondidos entre a vegetação, chegamos às margens do rio e nada do gato. Putz! Outro mistério. Decididos a chamar o gato pelo nome, quando de repente o silencio é quebrado por um violento rebojo na flor d´agua. Assustados (confesso que tremi de medo), ficamos perplexos com a cena. Buteco chega à margem com uma piapara entre os dentes, numa briga desigual, porém agora em seu território, a terra.

Com muita habilidade, Buteco começou o preparo da sua refeição e nós ali espiando boquiabertos. O mistério estava desfeito, mas começaram as indagações que contraria a natureza felina, tais como: Um gato mergulhando? Quanto tempo resistiu embaixo da água? Para conseguir pegar uma piapara naquelas condições deve ser um exímio mergulhador?

Comentários a parte e fomos almoçar. Enquanto meu pai e meu tio descansavam na rede, com a mente focada naquelas cenas, eu tive uma idéia. Fui até a cocheira, peguei umas correias de couro e coloquei meus dotes de artesão / inventor em prática.

Confeccionei um colete com ajustes apropriado para vestir no Buteco, tomando o cuidado de adaptar uma argola na cernelha (parte do corpo animal onde se juntam as omoplatas – viram que minhas histórias também são cultura). Colete pronto, saí em busca do Buteco. Bastou um chamado e lá estava ele aos meus pés.

Saímos em direção ao rio. Vesti o colete no Buteco, entrelacei a linha do molinete na argola e arremessei o bichano na água. Alguns segundos depois, lá vem o Buteco trazendo uma piapara de uns 4 quilos entre os afiados dentes. Para o meu espanto e satisfação, o felino caprichosamente colocou a piapara dentro do samburá.

E assim passamos a tarde toda. Era um arremesso e uma piapara no samburá. Já perto do horário habitual do meu pai e tio Paulino voltarem ao rio, soltei o Buteco e guardei o colete no saco das tralhas.

Ao chegarem, fizeram aquela tradicional pergunta: Tá pegando? Eu respondo: Agora deu uma parada. Olhem no samburá e vejam o que vocês perderam descansando. Ficaram abismados não só com a quantidade como com o porte das “bitelas”, de 3 a 5 quilos. Afoitos e pretensiosos, jogaram suas iscas na água e nada...nada. Começou a escurecer, recolhemos nossa tralha e quando fui levantar o samburá, não agüentei, chamei o meu pai e tivemos que em dois arrastar barranco acima. Tio Paulino, sempre muito prático, foi até a casa e voltou com o trator e a carreta. Eu notava que os dois estavam desconfiados da minha proeza, mas eu fiquei ali, firme e irredutível.

(Continua na próxima semana)