Ele é comunicador, dono de uma das vozes mais conhecidas na região de Bauru. Atua na rádio 96 FM e na rádio Unesp. Tem a locução em sua história desde a época do ginásio. O homem por trás da voz cultiva a religiosidade, tem o olhar sempre voltado para auxiliar o próximo, ama a natureza e só acredita no trabalho realizado com alma.
Ele é Pedro Norberto, um homem simples e que na juventude sonhou ser médico, influenciado pelo pai e pelo desejo de servir a uma causa social. “Eu via na medicina uma maneira de ser útil para os outros.” Descobriu que através de sua atuação como comunicador de rádio também poderia atingir este objetivo. Comunicador com profundo senso social, hoje, ele seria psicólogo, se não fosse locutor. “Pelo momento atual, este profissional é muito necessário”, avalia.
Pedro Norberto fala sobre trabalho e espiritualidade; conta o episódio em que jogou bola com Garrincha; descreve a mulher perfeita; revela seu amor pela natureza e o desejo de sempre estar atento às coisas positivas da vida. A seguir leia a entrevista concedida ao JC.
JC - Você é da região. Quando menino já tinha algum interesse por rádio? Fale um pouco da sua infância.
Pedro Norberto - Sou de Arealva, mas estou aqui desde 1 ano e meio de idade. Os meus pais vieram para cá por causa do estudo dos filhos. Sou o caçula de cinco irmãos. Na infância, naquela época, eu digo que a gente era feliz e não sabia. A gente vivia na Bela Vista, estudei no colégio Torquato Minhoto, que era um grupo - naquele tempo ele não era fechado - e a gente jogava bola ali. Eu falo que naquele tempo não existia essa coisa de dinheiro para criança comprar... A gente tinha que ter criatividade com relação a tudo: brinquedo, brincadeiras. Para ter um pião, por exemplo, você tinha que pegar um caibro para trocar pelo pião. Com o caibro, o senhor fazia outros piões. O nome dele era Ponciano, era juiz de menor e nas horas vagas fazia pião. Ir numa matinê no Cine Bela Vista e depois tomar um sorvete de palito era um programa e tanto. Ir num campo assistir um jogo varzeano, por exemplo, se pudesse comer uma coxinha ou uma pipoca...Para assistir um espetáculo do circo, uma vez, eu entrei no circo para vender manjar, senão eu não teria como entrar. Era uma infância feliz com o pouco que você tinha.
Foi também na infância que eu tive muita relação com esporte. Comecei jogando basquete no Luso, fui jogador revelação. Depois, joguei vôlei e comecei a jogar futebol no Dente de Leite do Clube 12 de Outubro. Fomos vice-campeões, em seguida joguei 15 anos no futebol amador no São Francisco e fui campeão em 1981.
JC - Em que momento de sua vida a comunicação surgiu como opção profissional?
Pedro Norberto - Eu fiz dois vestibulares para medicina: em Botucatu e em Vassouras. Daí eu comecei a trabalhar em rádio porque parte da minha família trabalhava com rádio. Comecei a aprender como rádio-escuta. Eu trabalhava o dia inteiro, era muito pesado fazer cursinho e estudar para medicina. Então, fiz os dois vestibulares como se fossem um sonho do meu pai.
JC – Não era um desejo legítimo seu?
Pedro Norberto - Eu gostava. Eu via na medicina uma maneira de ser útil para o próximo. Desde o ginásio, na escola, em educação artística tinha que bolar um teatro e eu, então, já fazia locução, lia notícia; mas tinha no fundo também a vontade de fazer medicina. Mais tarde, como eu não consegui passar nestes vestibulares e já estava no rádio, eu vi que no rádio eu também poderia ser útil, servir, atender, ser uma ponte para a comunidade, intermediando reivindicações. Então, através do rádio, eu também poderia atingir este objetivo. Foi assim que fiz jornalismo, na antiga Fundação. Naquele tempo, era comunicação social. Só depois que chamaram para fazer a habilitação em jornalismo e daí cursamos um ano e meio de especialização.
JC - O que o rádio representa hoje em sua vida?
Pedro Norberto - A coisa que eu mais gosto em rádio é apresentar, representar. Eu fiz jornalismo, mas eu digo que o que me dá prazer realmente é ler uma notícia triste ou alegre e sentir aquilo que está lendo. Passar credibilidade, sentimentos. Hoje o rádio é minha vida em termos de realização profissional e de ser um agente da informação e formação, até, por exemplo, num evento importante que você pode ajudar a divulgar. Tudo não deixa de ter um fundo social, de servir à comunidade.
JC - Qual a história mais marcante, que mais te impressionou pelo aspecto engraçado, dramático, inusitado, em sua vida profissional?
Pedro Norberto - Todo profissional quando está começando tem um sonho e o meu, antes de entrar na rádio (Auri Verde), era apresentar o programa Vanguardão. Aquilo era um sonho distantíssimo porque este programa era o Jornal Nacional da rádio, ele tinha 87% de audiência. E eu realizei o sonho de apresentar o Vanguardão. E junto com este programa tinha também o homem-notícia. Isto era muito importante, a ponto de transpirar, ficar nervoso, afinal não era qualquer um que apresentava o Vanguardão e era o homem-notícia. Eu fui ganhando experiência e tive estas oportunidades.
Outros fatos marcantes eram os jogos promovidos pela rádio entre a imprensa e convidados importantes. Nestes jogos, tive a oportunidade de jogar com os Trapalhões Renato Aragão, Zacarias, Mussum, Dedé; em outra oportunidade, joguei com o Garrincha.
JC – Como foi jogar com o Garrincha?
Pedro Norberto - Na época nem tirei uma fotografia, não ligava para isso, mas devia ter tirado. Ele já estava em fim de carreira, com problemas no joelho, mas foi uma oportunidade. Tinha também os cantores que a gente acabava convivendo. Antigamente, eles se promoviam através do rádio, como Guilherme Arantes, Jamelão, Simone, que eu lembro. Às vezes, elogiavam minha voz.
JC – Além de locução de rádio, em que mais você trabalhou?
Pedro Norberto - Trabalhei na Globo 11 anos como locutor-anunciador, aquele que fala os prefixos tipo: “ZYD, Rede Globo, assista agora o Jornal Nacional”. Fazia os bastidores, então convivi com o Luiz Carlos Azenha, Gilberto Barros.
JC – Você fazia comerciais também?
Pedro Norberto - A minha característica de rádio foi sempre locução. Locutor noticiarista e locução de comerciais, de vídeos, de chamadas de programas. Atualmente, gravo chamadas para a TV Fronteira (Globo), de Presidente Prudente. Gravo também para a TV Diário (Globo Mogi das Cruzes), as manchetes do jornal Diário e apresento programas jornalísticos nas rádios 96 FM e Unesp FM. Eu tenho uma característica de voz e gravo de acordo com ela, que é mais séria, formal. Faço cerimonial, formatura, balé, leituras na Igreja.
JC - Você emprestaria a sua voz a quem?
Pedro Norberto - Emprestaria minha voz não para pessoa, mas para uma causa nobre, construtiva, que levasse as pessoas a refletirem e enxergarem melhor o próximo, a conviver melhor, porque hoje está difícil até de conviver. Hoje falta consciência às pessoas sobre o que é realmente importante para ter paz e ser feliz.
JC - Você tem algum cuidado especial com a voz?
Pedro Norberto - Eu procuro não abusar de gelado, evitar ar-condicionado, faço aquecimento antes de entrar no noticiário, não sou radical, mas procuro ter cuidado. Andava muito de moto, hoje não mais. Eu aprendi com uma otorrino que o que faz mal não é o ar que bate no seu corpo, mas o que entra pela narina. Quando você respira normal, o ar chega quente no pulmão, já na moto, como você está em movimento rápido, ele chega gelado e é isso que causa problema respiratório.
JC - Você já teve alguma situação delicada em que perdeu a voz, na hora de apresentar o noticiário?
Pedro Norberto - Já tive momentos de ter que administrar isso, de ter que mandar cortar o microfone, dá uma tossida ou ficar meio afônico, superar aquele momento, diminuir a tonalidade de voz para não desafinar. Então você passa por diversas situações e tem que tentar driblar. A coisa mais terrível para mim é ficar afônico, é meu instrumento de trabalho. Eu não gosto de ficar ocioso, por isso eu me preservo para evitar isto. Faço gargarejo com água morna e higienização de narina com soro fisiológico.
JC - Você é tido como uma pessoa supertímida. Como você se despe da timidez diante do microfone em seus programas? O Pedro Norberto sofre uma metamorfose nestes momentos? Seria como entrar num personagem?
Pedro Norberto - Eu penso que cada experiência na sua vida é um recomeçar. Mesmo que eu esteja no palco mil vezes, cada uma é como a primeira vez. O que eu coloco no palco é minha parte vocal, a minha experiência de ler um texto e interpretar, a experiência da convivência humana e muita atenção no que estou fazendo. Um dia eu fui gravar um comercial na Record e o Flávio Migliacio estava gravando um comercial de Papai Noel. Ele gravou umas quatro vezes e eu perguntei o porquê. Ele disse que tinha que entrar no personagem, incorporar aquilo. Então, um texto que você grava, se você não sentir o que está lendo, vai ser uma coisa maquinal. Na leitura de notícias você tem de se colocar no lugar da pessoa que é notícia. Caiu um avião, você não vai ler aquilo sorrindo, então é assim.
JC - O que você considera mais importante para fazer um bom trabalho?
Pedro Norberto - Não fazer da boca para fora, brotar de dentro, da alma. Talvez esta seja a diferença de uma locução e de outra...Alguns cantores, atores, atrizes, por exemplo, não são necessariamente bonitos, mas a maneira de interpretar os tornam lindos. A Maryl Streep, por exemplo, naquele filme “Entre Dois Amores”. Nesse filme eu vi a mulher mais perfeita deste mundo.
JC – Por quê? Como é a mulher perfeita para você?
Pedro Norberto - Uma mulher perfeita? No filme a personagem é sensível, compreensiva como esposa, como empresária tem uma visão humana no tratamento dos empregados, passa firmeza, enfim, combinando tudo isso ela se torna uma mulher bela, linda.
JC - Desde a época em que começou a trabalhar até hoje, o estilo de locução mudou? Você acompanhou essas mudanças?
Pedro Norberto - Quando a gente começa, sempre se espelha em alguém. Eu comecei fazendo rádio-escuta na rádio Globo do Rio de Janeiro, tinha o Sérgio Chapelen, o Eron Domingues. Você vai se espelhando até chegar no ponto que você encontra o seu estilo.
JC - Você procura orientar quem está começando?
Pedro Norberto - Hoje em dia não existe um padrão de voz, como antigamente. Hoje qualquer pessoa vai lá e fala. Com os recursos sonoros, a pessoa atualmente não precisa ter voz. Quando tem alguém começando que posso orientar, passar algo para ela, eu passo, assim como passaram para mim. Procuro dar as dicas. Não significa que sou uma pessoa pronta, mas que sempre estou olhando outros profissionais.
JC - Hoje quem você considera um locutor perfeito?
Pedro Norberto - Quem tem uma locução perfeita é o Dirceu Rabelo, da Globo, que grava chamadas. Ele tem a colocação perfeita em termos de voz.
JC - Você passa algumas mensagens na FM 96 sempre exaltando o cuidado com o lado espiritual, todo ano lança CDs com mensagens de Natal. A espiritualidade é um ponto fundamental na sua vida? De que forma você a exerce no dia-a-dia?
Pedro Norberto - Não existe divisão, não pode separar o espiritual do dia-a-dia, a gente é humano e divino. Uma hora você tem um comportamento humano, uma hora você tem uma reflexão espiritual para avaliar aquele comportamento. E essas mensagens que eu passo, eu não fazia idéia da importância delas. Fiquei sabendo que tem gente que não sai antes de ouvi-las. Às vezes a mensagem é para mim mesmo: eu não estou legal e a pessoa liga e fala que aquela mensagem serviu para ela. Então, isto aumenta mais meu desejo de transmití-las. São mensagens simples, mas que têm um efeito importante para as pessoas. Isto é bom. A espiritualidade sempre esteve presente na minha vida. Meus pais eram religiosos, não eram fanáticos, mas meu pai dava exemplo para gente, não com a fala, mas em ação. É engraçado porque até o esporte me aproximou da religião. Na infância tinha os Marianos (Congregação Mariana), que promovia jogos de pingue-pongue e futebol de salão, só que a condição para participar era ir à missa das 6h da manhã. Eu ia. Foi uma sementinha plantada que foi crescendo. Quando eu ia jogar futebol, eu fazia uma oração. Foi assim.
JC - Como é o Pedro Norberto fora do trabalho?
Pedro Norberto - Tenho uma chácara. Sou uma pessoa totalmente ligada à natureza. Aquilo não é um lazer, é uma terapia, é um remédio para mim no fim de semana. Se alguém me convida para ir para o lugar mais especial que for, para mim o mais importante é estar ali naquele momento, por mais simples que seja a chácara, aquele é um momento especial. Especial como numa seca chegar a chuva e agradecer por aquela chuva.
JC - E os filhos? Como é sua relação com eles e qual é o papel deles na sua vida?
Pedro Norberto - Tenho dois filhos. O Lucas, de 21 anos, e o Leonardo, de 17 anos. Eles estão no período de entrar em faculdade, em que eles têm de decidir e a gente, os pais, não pode interferir tanto, não pode pressionar e sim dar apoio. Hoje é mais difícil para os jovens por que há muitas opções de cursos. Antigamente, era medicina, engenharia. A juventude fica em dúvida e a gente quer ajudar, como pai, mas ao mesmo tempo não quer forçar seu filho a fazer aquilo que você quer. Você fica numa situação meio delicada, tenta ajudar, tenta encaminhar.