10 de julho de 2026
Geral

Vestibulandos se dividem entre vocação e mercado de trabalho

Érika Pelegrino
| Tempo de leitura: 3 min

Desde os 13 anos, Joana de Faria queria fazer medicina. Fabrício Leonardi sonhava com medicina, mas no terceiro ano de cursinho, desistiu. Vai cursar engenharia de produção. Heloísa Canhas acreditava no retorno financeiro que teria como analista de sistemas, Luciana Vieira escolheu psicologia porque ama a profissão, hoje ambas trabalham numa empresa de cobranças. Vocação ou análise de mercado? Existe um critério que garanta sucesso na escolha da profissão?

Especialistas em psicologia, orientação vocacional e coordenação de vestibular não se arriscam a dar estatísticas que revelem como os jovens estão escolhendo suas profissões. Porém, alertam para questões importantes, como a ausência de preparo dos jovens para optar por uma carreira, o alto índice de desistência na graduação, a existência de profissionais frustrados e de jovens que ainda escolhem a profissão para realizar o sonho dos pais.

Medicina, engenharia, economia são as profissões que pagam melhor e apresentam maior possibilidade de empregabilidade em São Paulo. O dado é de pesquisa coordenada pelo economista Marcelo Neri, da Fundação Getulio Vargas. Porém, escolher a profissão tendo como critério apenas o melhor salário não garante realização financeira, ponto em que os especialistas entrevistados são unânimes.

Pesquisas que dão um panorama do mercado de trabalho são muito úteis para que os jovens tenham informações práticas na hora da escolha. Porém, este é apenas um dentre os critérios que devem ser levados em conta. A psicóloga que atua na área de orientação vocacional Silvana Bórmio afirma que o ponto que mais a tem preocupado é o fato de os jovens estarem fazendo suas escolhas completamente despreparados.

Segundo ela, 42% dos estudantes das universidades públicas do País desistem do curso no segundo ano de graduação, pois descobrem que não querem a profissão escolhida. “Aqueles que não têm coragem de desistir tornam-se profissionais tristes, frustrados, com chance de prejudicar outras pessoas tornando-se onerosos para a sociedade”, afirma.

Isto ocorre porque falta aos jovens autoconhecimento e informação sobre o mercado de trabalho e a profissão que pretendem escolher. “Na maioria das vezes eles sabem apenas dos aspectos positivos da profissão que pensam em escolher”, afirma. “Muitos ainda querem medicina porque pensam apenas na realização financeira, mas não levam em conta os dois, três anos de cursinho para entrar na faculdade, os seis anos do curso, as privações vividas pelo médico em função do excesso de trabalho”, relata.

A professora do Departamento de Psicologia da Unesp, Norma de Fátima Garbulho, ressalta a importância do autoconhecimento. Segundo ela, o jovem precisa ser auxiliado no sentido de conhecer os elementos que determinaram seus interesses. Ao compreender o contexto de sua escolha, o vestibulando terá mais chances de fazer opções bem sucedidas. “O jovem precisa identificar quem ele é, qual o papel do trabalho na sua vida, que profissional ele deseja ser”, explica Garbulho.

Trata-se de um processo complexo, que não se resume a saber se gosta da profissão ou se ela trará um bom retorno financeiro. Em função disto, a psicóloga Silvana Bórmio defende que os currículos escolares discutam, desde a infância, questões sobre a vida profissional. “Este seria o ideal, porém, no mínimo o jovem deveria começar a refletir sobre esta escolha no primeiro colegial”, avalia.