09 de julho de 2026
Ser

Deficiência não anula desejo sexual

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 7 min

A revolução sexual do século 20 provocou diversas mudanças comportamentais na sociedade. Apesar disso, lidar com a sexualidade ainda é tabu por grande parte das pessoas e em alguns casos encontra resistência na relação de pais e filhos. Quando passa para o universo dos portadores de deficiência intelectual (conhecido como deficiente mental), o tema intensifica-se ainda mais e pode vir acompanhado de dificuldades e preconceitos. Entre eles, a falsa crença de que essa parcela da população é assexuada ou hipersexuada.

No recém-lançado livro “Sexualidade e Deficiência: Rompendo o Silêncio”, as autoras Mina Regen, Penha Lopes e Ana Rita de Paula, cadeirante desde aos 8 anos devido à síndrome de amitrofia espinhal, explicam que a discriminação é de caráter histórico e está ligada não somente à deficiência, mas percebida como uma coisa proibida. “Principalmente no caso da deficiência intelectual, existe o preconceito em relação ao deficiente poder ter um companheiro ou companheira”, diz Regen, assistente social e proprietária de uma empresa especializada na busca de emprego para deficientes.

De acordo com ela, muitas vezes a sexualidade das pessoas portadoras de deficiência pode ser confundida com falta de interesse ou exacerbação do sexo. “As famílias morrem de medo que os deficientes entrem em contato com o próprio corpo. Há alguns que nem sequer sabem se masturbar.” Além disso, é comum o próprio deficiente acreditar que não pode exercer sua sexualidade.

Nenhuma deficiência anula o desejo sexual, uma vez que ele é relacionado à subjetividade e não corresponde a um fenômeno bio-psíquico, defendem as autoras. Segundo Regen, na maioria das vezes o corpo da pessoa deficiente geralmente é um espaço associado apenas às limitações. E enxergar todo o corpo como possível de erotização pode desafiar uma cultura que concentra prazer somente nos órgãos sexuais e reduz a sexualidade ao sexo. “A pessoa com deficiência física ou intelectual acha que não podem vivenciar a sexualidade, mas ela pode, desde que seja devidamente orientada.”

Justamente por isso, a sexualidade deve ser encarada como algo natural na vida dos portadores de necessidades especiais, afirma a psicóloga da Sorri Bauru, Leslie Picolo Malandrino. “É preciso considerar a sexualidade como algo que faz parte do cotidiano, assim como eles precisam de educação regulamentada e grupos para se socializar”, diz ela.

Apesar disso, seja por falta de informação ou despreparo, o fato é que uma grande parcela de deficientes físicos ou mentais – 24 milhões dos brasileiros ou 14,5% da população, segundo o Censo de 2000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) - enfrenta barreiras para vivenciar relacionamentos e a experiência erótica.

Alexander Roberto Bueno, 30 anos, que possui deficiência física e intelectual em grau leve, já passou por situação semelhante. Extrovertido e sorridente, ele já teve algumas namoradas e possui vida sexual ativa. Em um dos relacionamentos, foi vítima de preconceito por parte da família da namorada, conta sua mãe, a cozinheira Alice Leandro. “O Alex estava se relacionando com uma moça e a mãe dela veio reclamar para mim que os dois estavam ficando juntos até duas horas da manhã. Ela foi à minha casa e perguntou como é que eu deixava meu filho deficiente e ‘aleijado’ namorar a filha dela”, diz.

Casado há 18 anos e pai de três filhos, Vanderlei Aparecido Belchior, 42 anos, adquiriu esclerose múltipla há dois anos e teve a oportunidade de vivenciar os “dois lados” da questão. “Esse preconceito (em relação à sexualidade dos deficientes mentais) é um paradigma porque, a partir do momento que passei a vivenciar isso, tudo se tornou natural. Encaro a sexualidade de forma normal porque isso faz parte do meu cotidiano.”

As psicólogas Priscila Foger Marques e Maria Ângela Leite e Silva, da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), explicam que para exercer a sexualidade é importante adequá-la ao comportamento dos deficientes. “Cada um vai experimentar essa situação de forma diferente, de acordo com suas condições e oportunidades”, aponta Marques. “A sexualidade está ligada ao relacionamento com o outro, ao enamoramento, afeto e amor e tem a mesma importância para a vida e felicidade de qualquer pessoa”, ressalta.

Encontrar um amor é o sonho de Natanael Marques de Oliveira, 21 anos, que freqüenta a Sorri há seis anos para tratar de uma deficiência intelectual leve. Ele conta que sua timidez, na maioria das vezes, dificulta a aproximação com as garotas. “Tenho várias paqueras, mas está difícil arrumar uma namorada”, diz.

Quem tem sonho semelhante são Alexander Bueno e a portadora de síndrome de Down Andressa do Nascimento Jaime, 24 anos. “Já namorei, mas ainda estou procurando a pessoa certa”, revela Bueno.

Já Daniele de Souza Moura, 30 anos, também com deficiência intelectual leve e usuária da Sorri, teve mais sorte. Casada há sete anos, ela estampa um grande sorriso ao falar sobre o marido, Celso. “Ele não é deficiente e logo que nós nos conhecemos disse o que eu tinha, como eu era”, conta, lembrando o dia no qual se apaixonaram.

“Estava passeando com minhas amigas e vi o Celso perto da escola da minha avó. Nos conhecemos, ele perguntou meu nome, depois foi falar com meus pais, namoramos e casamos”, diz. Para o futuro, Moura revela seus planos: quer trabalhar e adotar uma criança, uma vez que não pode ter filhos.

Vivenciar a sexualidade não faz parte do cotidiano de Gessner Augusto Daré Júnior, 40 anos, portador de síndrome de Down. Ele começou a se interessar pela sexualidade há pouco tempo, de acordo com seu irmão, Miguel Daré. Júnior adora ver mulheres bonitas nas revistas e na televisão e algumas vezes costuma “piscar”, mandar beijos ou ainda beijar a capa da revista. “O Júnior nunca foi despertado para a vida sexual. Tenho a impressão é de que somente agora ele está entrando na fase da adolescência”, diz o irmão.

As autoras Mina Regen, Penha Lopes e Ana Rita de Paula defendem que a sexualidade tem a importância de inserir a pessoa no mundo. De acordo com elas, a experiência erótica não pode ser desvinculada do cotidiano dos portadores de deficiência.

“A pessoa tem de participar de todos os grupos sociais para desenvolver a sociabilidade e comportamentos adequados”, observa Regen. Além disso, destaca, a convivência social ajuda a ampliar o círculo de amizades do deficiente e também favorece a inserção no mercado de trabalho.

Papel da família

O apoio familiar e o modo como os pais lidam com a sexualidade é fator decisivo na vida dos deficientes, apontam psicólogas ouvidas pelas reportagem. A psicóloga da Sorri Bauru, Leslie Picolo Malandrino Leslie Malandrino, observa que para muitas famílias é difícil aceitar que o portador de necessidades especiais também tem desejos. Priscila Marques aponta que existem pais que não permitem ou acreditam que a vivência da sexualidade não vai acontecer com o filho por conta da deficiência. “Há ainda algumas famílias que têm um certo medo de permitir e depois não conseguir controlar essa vivência”, analisa.

Afetuoso e dócil, o portador de síndrome de Down Gessner Augusto Daré Júnior, 40 anos, conta que agora está sentindo necessidade de demonstrar carinho para alguém. “Tenho isso no meu coração. Tenho uma namorada, a Karla Cristina, mas ela é de São Paulo”, conta ele, se referindo à uma fantasia ou pessoa imaginária criada por ele, explica seu irmão, Miguel Daré. Gessner Jr., porém, nunca teve experiência sexual, afirma Daré. “Acho extremamente difícil e não saberia como lidar com isso”, diz.

Segundo a psicóloga Priscila Foger Marques, da Associação dos Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), nas famílias que apóiam ou permitem o namoro e relacionamentos amorosos, a experiência da sexualidade ocorre de forma natural. Nesses casos, é fundamental orientar, educar e acompanhar o cotidiano do deficiente intelectual, ressalta a psicóloga.

“Eles têm possibilidade e expectativa de namoro e casamento, mas é preciso haver uma supervisão em relação às pessoas com deficiência mental. Os relacionamentos não precisam ser vigiados, mas supervisionados pela família”, esclarece.