Até por volta do início dos anos oitenta, filhos chamavam Pai e Mãe de Senhor e Senhora. Depois, o equânime "você" passou a ser empregado como pronome de tratamento usado pela garotada no âmbito doméstico, não só com os Pais, mas também no trato com outros parentes: avós, tios e outros. De uma maneira geral, o adulto e, mais ainda, o idoso são tratados com respeito em bancos, órgãos públicos e instituições onde se socorrem de qualquer serviço. Mas existem garotonas e garotões bem nutridos, bem vestidos, universitários até, com gel no cabelinho armado e tudo o mais, que insistem em se dirigir a Senhoras e Senhores desconhecidos e com idade para ser pais de seus avós, usando o tão desrespeitoso quanto ridículo você.
Nas situações mais diversas do cotidiano, mesmo quando quem fala figura como quem solicita algo a com quem se fala, grassam mesmo entre interlocutores estranhos formas de tratamento como “cara", “meu", “careta", “nego", “bicho", “peão", “caboclo", “compadre ", “chapa" e muitos outros, alguns impublicáveis. Mas, voltando ao você: ora, você é a forma evoluída do vossa mercê, tratamento formal e respeitoso usado até pouco depois da Proclamação da República. Os escravos mais rudes e outros menos aquinhoados de escolaridade pronunciavam vosmecê ou assuncê, como mostram as novelas e filmes de época, mas ainda em tom respeitoso.
Você ainda é ou era até há pouco tempo usado em algumas regiões de Portugal, em correspondências comerciais e outras situações que exigissem formalidade, como um sucedâneo do vossa mercê, ou seja, ainda um tratamento respeitoso. Mas no Brasil tem outro significado: remete à proximidade, familiaridade e mesmo à intimidade entre interlocutores. Não deve ser empregado nem mesmo entre conhecidos de longa data caso exista uma disparidade de idade ou grau de hierarquia entre quem fala e ouve; a menos que haja consentimento, ainda que tácito. Pais e mães devem recomendar a seus pequenos a restrição desse tratamento ao meio familiar e aos coleguinhas e conhecidos da mesma faixa etária.
E o que dizer então do tia que em algumas escolas substituiu o professora? Algumas pré-escolas até o estimulam entre as crianças. Ora, tia, com exceções, é aquele personagem do âmbito familiar sempre disposto a ser complacente e cúmplice das traquinagens da sobrinhada, portanto, incongruente com a arte de ensinar e educar. E o tio, usado inicialmente por meninos de rua e depois por adultos que assimilaram sua linguagem e o usam ao abordar senhores desconhecidos com idade para ser seu avô? Nesse caso temos talvez um substitutivo do seu Zé, usado até há pouco.
Mas, se vemos e ouvimos com freqüência muitas formas de tratamento inadequadas que “subestimam", temos também outras que encerram um “superfaturamento". Que o diga o “doutor", empregado também em tom de “respeito" pelo menos afortunado economicamente para se dirigir àqueles que combinam hierarquia e prosperidade na escala social. E que incluam terno e gravata no vestuário habitual, claro.
Sidnei Rodrigues - RG 10.347.093