08 de julho de 2026
Nacional

Banco de cérebros

Por Claúdia Collucci | Folhapress
| Tempo de leitura: 4 min

Quem passa em frente à sala de número 1.351 da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) na Capital nem imagina que está diante do maior banco cerebral do mundo. Ali, 1.800 cérebros de pessoas acima de 50 anos, sadias e doentes, ajudam os cientistas a entender o processo de envelhecimento e as doenças neurodegenerativas que são associadas ao órgão.

Bancos estrangeiros mais velhos reúnem coleções menores. O da Holanda levou 20 anos para juntar 1.000 cérebros. O de Harvard (EUA), com 28 anos, possui cerca de 1.200 cérebros. Já o banco brasileiro teve início há dois anos, ganhou área própria duas semanas atrás e não pára de crescer. Recebe 100 cérebros a cada dois meses - média que alguns bancos estrangeiros obtêm por ano.

A generosa oferta é motivada pela cooperação das famílias brasileiras em doar os cérebros dos seus mortos e pela alta taxa de autópsias realizadas em São Paulo, o equivalente a 45% das mortes. Em outros países, o índice não ultrapassa 10%. O Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) faz 14 mil autópsias anuais - 60% delas em pessoas acima de 50 anos de idade.

O estudo de cérebros permite que os pesquisadores rastreiem as alterações cerebrais provocadas por doenças e, futuramente, vai possibilitar diagnósticos mais precoces e tratamentos mais eficazes. Segundo a patologista Lea Grinberg, coordenadora do Projeto de Envelhecimento Cerebral - ao qual o banco está ligado -, a idade avançada traz modificações estruturais no cérebro não necessariamente acompanhadas de sintomas. “É difícil saber quais as alterações decorrentes do próprio processo de envelhecimento natural e quais são as motivadas por doenças e, portanto, passíveis de tratamento.’’

Grinberg explica que para descobrir o que ocorre no cérebro doente, quais proteínas estão se acumulando e quais funções são perdidas em diferentes níveis é preciso compará-lo com o cérebro de indivíduos sadios, que têm a mesma idade e as mesmas características sociais, étnicas e profissionais.

Segundo o geriatra do Hospital das Clínicas José Marcelo Farfel, um dos coordenadores do banco, 30% dos cérebros doados, de pessoas sem sintomas de perda de memória, já tinham algum comprometimento. Estima-se que o início das doenças de Alzheimer e de Parkinson aconteça 15 anos antes de os primeiros sinais clínicos se manifestarem.

Farfel conta que países que estudam demências colecionam cérebros mais velhos e doentes. “São órgãos de pacientes que, na hora da morte, já apresentavam a doença em estágio avançado, tornando a freqüência de casos de controle insuficiente para comparação.’’

No projeto brasileiro, Farfel diz que já foram observados casos curiosos. Pessoas que apresentavam indícios de doença de Alzheimer, segundo relatos dos familiares, mas em cujos cérebros não foram encontradas alterações que justificassem a suspeita.

Outras vezes ocorre o contrário: são encontradas no cérebro alterações aparentemente comprometedoras, mas o responsável pelo paciente não relata comportamento que sugerisse aquela doença.

O banco brasileiro só aceita cérebros de pessoas que morreram de formas naturais. Ainda assim, há exceções. Mortes por acidente vascular encefálico de origem isquêmica ou hemorrágica, traumatismo craniano, meningite e tumores cerebrais também são excluídas por comprometer a qualidade dos tecidos cerebrais.

Outro fator de exclusão é se o morto que não tiver um familiar ou um cuidador responsável para fornecer informações necessárias relacionadas à sua história de vida.

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Projeto

O Projeto de Envelhecimento Cerebral da Universidade de São Paulo (USP) foi criado em 2004 para estudar as doenças de Alzheimer e de Parkinson e a depressão nos idosos, além do envelhecimento normal. Sinais de demência são raros em indivíduos abaixo de 50 anos, mas, acima dos 80 anos, a taxa chega a 25% da população.

“Entender esse processo e ser capaz de diferenciar o envelhecimento normal do patológico (senilidade) é o primeiro passo para garantir saúde aos idosos’’, afirma a coordenadora do projeto, Lea Grinberg.

O projeto reúne professores, médicos, alunos e profissionais de saúde da Faculdade e do Hospital das Clínicas e de outras universidades públicas do País. Ao todo, 150 pessoas estão envolvidas no programa. O laboratório tem 15 parceiros, entre eles universidades de Alemanha, Holanda e EUA, o Hospital do Câncer de São Paulo e o hospital Albert Einstein.

No entanto, até agora não conseguiu patrocínio das agências brasileiras de fomento a pesquisas. Sobrevive graças a recursos vindos do departamento de patologia da USP e das parcerias. Em troca, faz pesquisas de interesse dos parceiros.

O custo mensal do banco de cérebros é de R$ 10 mil - os pesquisadores não ganham pelo trabalho. O banco de Amsterdã, por exemplo, que coleta 80 cérebros por ano, tem orçamento mensal de 40 mil.

Nos últimos dois anos, os pesquisadores já apresentaram pelo menos 12 estudos em congressos nacionais e internacionais - 30 estão em andamento. Um deles, que avaliou 161 cérebros de pessoas com funções cerebrais normais, mostrou que as mulheres tiveram maior perda de massa cerebral no início da fase idosa. Entre os homens, isso ocorreu no final. Não houve diferenças funcionais entre os dois.

Folhapress