08 de julho de 2026
Mulher

Adolescentes encaram a ‘faca’

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 4 min

Na era da imagem, não apenas a moda dita as regras. Rostos e corpos perfeitos também fazem parte dos padrões de beleza atuais. E para alcançar esse perfil, muitas pessoas recorrem às cirurgias plásticas, que estão cada vez mais em alta no País, principalmente entre as adolescentes.

Segundo pesquisa desenvolvida pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), em 2004 foram realizadas 616.287 mil cirurgias plásticas, sendo 59% delas estéticas e 41% reparadoras. Desse total, 13% correspondem a procedimentos feitos em jovens de 14 a 18 anos. Segundo a assessoria de imprensa da SBCP, em 1994, 5% das cirurgias incluíam o público teen. Entre os procedimentos mais procurados destacam-se a lipoaspiração, correção da mama e na face.

O aumento no número de plásticas pode ser creditada a vários fatores. Entre eles, o contexto sociocultural e a evolução da medicina, aponta Antônio Graziosi, cirurgião plástico e presidente da SBCP Regional São Paulo. “Hoje se dá muita importância à qualidade de vida e a cirurgia plástica é um dos componentes que proporciona isso às pessoas.” “Ninguém vai procurar a cirurgia plástica, porém, se não sentir confiança nos procedimentos”, ressalta ele.

Outro fator que contribui para esse cenário é o modelo estético atual, aponta Graziosi. “Os padrões de beleza também são influenciados pelo seu meio. Mas existe uma questão paradoxal: ao mesmo tempo em que as pessoas querem se sentir semelhante aos seus pares, também querem se diferenciar.”

A cirurgiã dermatológica e nutróloga Daniela Hueb compartilha do mesmo pensamento de Graziosi. Ela observa que, deixando de lado a própria beleza, muitas pessoas estão se descaracterizando. “As mulheres estão ficando parecidas: cabelos compridos, seios com silicone, nariz pequeno e lábios carnudos. Mas todas as pessoas têm sua beleza peculiar, mesmo não atendendo o padrão exigido”, diz. E nessa ditadura do corpo, a mídia pode exercer grande influência na sociedade, destaca Hueb.

“As revistas estampam modelos com corpos inatingíveis, mas existe o Photoshop que corrige as imperfeições e toda mulher, tendo hormônio feminino, tem um pouco de celulite”, analisa Hueb. De acordo com ela, é impossível atingir essa perfeição e, muitas vezes, as pessoas podem se sentir frustradas, especialmente as adolescentes. “Muitas pessoas buscam na cirurgia uma forma de resolver questões psicológicas ou afetivas”, diz. Graziosi concorda e ressalta que devido à instabilidade emocional, nem sempre as meninas têm consciência da cirurgia plástica.

Não raramente, muitas teens “entram na faca” e mudam o visual somente para ficar semelhante aos seus ídolos. “Elas querem se parecer tão bonitas quanto alguém que admiram”, diz Graziosi. Por outro lado, enfatiza ele, outra parcela das adolescentes têm realmente problemas estéticos e desejam corrigi-las. “Algumas têm deformidades na mama que merecem cirurgia. Elas querem ter seios normais e não parecidos com a de outra artista”, diz.

Para avaliar com clareza o que está incomodando a adolescente é necessário olhar clínico e apoio dos pais, salienta Graziosi. “É preciso esclarecer bem a paciente e seus pais porque a cirurgia plástica tem suas vantagens quando é bem compreendida. Se a pessoa entender as limitações do processo, sabendo que vai haver cicatrizes, por exemplo, consegue lidar bem com os prós e os contra”, detalha.

Cuidados

A realização de cirurgias plásticas em adolescentes, porém, exige atenção especial, explica Graziosi. Ele observa que, em primeiro lugar, é necessário respeitar a idade. A plástica do nariz, por exemplo, é indicada – na maioria das vezes - a partir dos 15 anos. “É preciso esperar uma certa estabilidade na parte óssea para a realização da plástica”, diz.

A cirurgia de correção da mama ou implante mamário com prótese de silicone também requer cuidados. Graziosi explica que enquanto o corpo da mulher não tiver sua parte hormonal estabilizada, não se deve realizar a plástica mamária. “A mama sofre transformações na adolescência e é preciso aguardar o resultado final para poder indicar a cirurgia. É fundamental esperar a maturidade da mama, que gira em torno dos 18 anos.”

“Se uma menina de 12 ou 13 anos colocar silicone, ela não teve sua formação de mama. Aí, aos 18 anos sua mama pode ter crescido e ela fez uma cirurgia desnecessária porque não esperou o momento adequado para tomar uma decisão”, complementa Graziosi. A mesma regra vale para a lipoaspiração, destaca ele. “Nesse caso, a menina pode esperar até os 17 ou 18 anos. Depois disso, se ela achar que tem gordura localizada, pode fazer.”

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Em 2004 foram realizadas 616.287 mil cirurgias plásticas, sendo:

• 69% em mulheres

• 31% em homens

• 8% em crianças de 7 a 13 anos

• 13% em adolescentes de 14 a 18 anos

Entre os procedimentos mais procurados estão:

• Lipoaspiração: 54%

• Mama em geral: 32%

• Face em geral: 27%

• Abdômen: 23%

• Pálpebras: 16%

• Pescoço: 12%

• Nariz: 11%

Regiões que mais realizaram cirurgias:

• São Paulo / Capital: 126.815 mil

• Região Sul (RS; SC e PR): 97.886 mil

• Minas Gerais: 87.930 mil

• São Paulo / Interior: 85.309 mil

• Rio de Janeiro: 76.078 mil

• Região Centro-Oeste (MS, MT, GO e DF): 71.897 mil

• Regiões Norte e Nordeste: 70.372 mil

Fonte: Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) www.cirurgiaplastica.org.br